segunda-feira, 14 de abril de 2008
Vou ser poeta
- Vou ser poeta - disse uma vez, e levantou os olhos, de cabeça inclinada para o lado.
Contemplava o mar, as suas madeixas louras ondulavam no vento quente, debaixo das pálpebras semicerradas observava atentamente o horizonte. A ama abraçou-o, apertou a cabeça dele contra o peito. E disse:
- Não, vais ser soldado.
- Como o pai? - a criança abanava a cabeça. - O pai é também poeta, não sabias? Pensa sempre noutra coisa.
- Sándor Márai, As velas ardem até ao fim
Contemplava o mar, as suas madeixas louras ondulavam no vento quente, debaixo das pálpebras semicerradas observava atentamente o horizonte. A ama abraçou-o, apertou a cabeça dele contra o peito. E disse:
- Não, vais ser soldado.
- Como o pai? - a criança abanava a cabeça. - O pai é também poeta, não sabias? Pensa sempre noutra coisa.
- Sándor Márai, As velas ardem até ao fim
Busque Amor novas artes, novo engenho - RR
Como exercício apenas - tal como 'posts' anteriores - tento responder ao desafio da Ana Luísa Amaral e escrever um soneto. Como creio que este exercício é para 4ª feira próxima, coloco-o no 'blog'. Ficamos à espera de outras "propostas"
Busque Amor novas artes, novo engenho,
que eu já não tenho forças p’ras buscar
O amor ardente que por ti tenho
amarra-me as mãos, seca-me o falar
E de cada vez que por ti venho
vou-me embora, quando quero ficar
E já nem as esperanças mantenho
de amanhã, por ti, de novo voltar
Porque sei que te perco se abrir
ou se não abrir o meu coração
tanto faz, vou-me sempre desgraçar
Mas em vez de me decidir partir
continuo a viver nesta aflição
se viver, se lhe poderá chamar
RR
Busque Amor novas artes, novo engenho,
que eu já não tenho forças p’ras buscar
O amor ardente que por ti tenho
amarra-me as mãos, seca-me o falar
E de cada vez que por ti venho
vou-me embora, quando quero ficar
E já nem as esperanças mantenho
de amanhã, por ti, de novo voltar
Porque sei que te perco se abrir
ou se não abrir o meu coração
tanto faz, vou-me sempre desgraçar
Mas em vez de me decidir partir
continuo a viver nesta aflição
se viver, se lhe poderá chamar
RR
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Busque Amor novas artes novo engenho,
Sonetos
domingo, 13 de abril de 2008
Numa mensagem anterior, dava os parabéns ao Renato pelos textos -- e pelo blogue, é claro, que agradecia! Essa tentativa de mensagem não resultou: sou ainda ignorante nisto de blogues, e, como vêem, sai tudo com o mesmo tipo de letra, nem itálicos consigo fazer... Ficam agora aqui, repetidos e visíveis (espero), os parabéns. E obrigada.
Sobre a musa
Pois, eu concordo com o Renato, mas que, secularizada ou recusada, ela continua a dar jeito como pretexto para a escrita, ah, isso continua! Seguem dois poemas:
“O problema da musa”
Hoje, pergunto o que fazer com a musa?
Vejo-a sentada no sofá, com uma revista na mão,
como se estivesse à espera de entrar
para a consulta; e deixo o tempo passar,
sem saber se a chame ou se a deixe em paz, com
a sua revista, enquanto acabo o poema. No entanto,
à medida que escrevo, a dúvida instala-se: e se ela
estivesse comigo, se as suas mãos pousassem nos
meus ombros, e os seus lábios respirassem com força
para cima de mim, seria outro este poema? Que
desejo o percorreria, ou a que rosto ausente o verso
daria forma, sob a sua inspiração? Devagar, sem
fazer barulho, deixo a página e espreito-a: a sua mão
disfarça um bocejo; e fecha os olhos, como
se o sono a dominasse. Então, prefiro
não a acordar; e acabo o poema sem ela, esperando
que venha ter comigo, num outro dia.
Nuno Júdice
NEM TÁGIDES, NEM MUSAS
Nem tágides nem musas:
só uma força que me vem de dentro,
de ponto de loucura, de poço
que me assusta,
seduzindo
Uma fonte de fios de água
finíssima
(raio de luar a mais
a secaria)
Nem rio nem lira
nem feminino grupo a transbordar:
só o que herdei em força não herdada,
em fonte onde o luar
não está -
Ana Luisa Amaral
Pois, eu concordo com o Renato, mas que, secularizada ou recusada, ela continua a dar jeito como pretexto para a escrita, ah, isso continua! Seguem dois poemas:
“O problema da musa”
Hoje, pergunto o que fazer com a musa?
Vejo-a sentada no sofá, com uma revista na mão,
como se estivesse à espera de entrar
para a consulta; e deixo o tempo passar,
sem saber se a chame ou se a deixe em paz, com
a sua revista, enquanto acabo o poema. No entanto,
à medida que escrevo, a dúvida instala-se: e se ela
estivesse comigo, se as suas mãos pousassem nos
meus ombros, e os seus lábios respirassem com força
para cima de mim, seria outro este poema? Que
desejo o percorreria, ou a que rosto ausente o verso
daria forma, sob a sua inspiração? Devagar, sem
fazer barulho, deixo a página e espreito-a: a sua mão
disfarça um bocejo; e fecha os olhos, como
se o sono a dominasse. Então, prefiro
não a acordar; e acabo o poema sem ela, esperando
que venha ter comigo, num outro dia.
Nuno Júdice
NEM TÁGIDES, NEM MUSAS
Nem tágides nem musas:
só uma força que me vem de dentro,
de ponto de loucura, de poço
que me assusta,
seduzindo
Uma fonte de fios de água
finíssima
(raio de luar a mais
a secaria)
Nem rio nem lira
nem feminino grupo a transbordar:
só o que herdei em força não herdada,
em fonte onde o luar
não está -
Ana Luisa Amaral
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Eu não sou eu nem sou o outro
Não resisto a enviar isto, pois o pequeno poema do M.S. Carneiro foi um dos que nos foi sugerido pela Ana Luísa Amaral na última sessão da oficina. Uma pequena variação em dó maior, que escrevi há muitos anos (quantos?) a partir de um dos muito poucos poemas que sempre soube de cor, de um dos poetas de que mais gosto.
Novas Definições
Novas Definições
Eu não sou eu nem sou o outro,
sou qualquer coisa de intermédio:
pilar da ponte de tédio
que vai de mim para o Outro.
( Em "Indícios de Ouro" de M.S.Carneiro)
Sob o Eu que eu sou, não sendo
há pontes, que só eu quero passar
O Eu que eu sou, temendo
agarra-me e obriga-me a ficar
e Aquele que nunca quis ser.
Vou de mim para o Outro
mas regresso antes de ser
estreitas, mas atravesso
Ao Eu que atrás deixei
entediado, eu regresso
cruzo as pontes à procura
Depois de não ter encontrado
regresso, já noite escura
Oh! quem me dera regressar
viajar, só de mim para mim,
deste tédio fim encontrar
e esquecer-me de onde vim...
Afinal existem ou não Musas?
As musasAfinal onde é que estão
as musas, se é que existem?
Estão no céu, no mar, no chão?
Será que ainda subsistem?
Desculpem lá a franqueza
mas já não somos meninos
São histórias de certeza
a lembrar os gambozinos
Se as chamam, não é à toa
não chamam homem bruto
Nada como mulher boa
para vender um produto
Renato Roque, 11 Abril 2008
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