segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Resposta a Marlene

Vogamos.
Olhamos o mundo com o espanto de sempre. Ou a serenidade possível.
Esperamos.
A passagem dos dias que escondem o passado sombrio e auspiciam um futuro mais perfeito.
Cremos.
Naquilo que cada um consegue: em nós mesmos, num deus ignoto, nos outros (poucos), no acaso ou na sorte.
Somos.
Cada hora, química e emocionalmente; existimos.
E haveremos de nos reencontrar.
Até lá, abraço.
M. 

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Hoje também é dia

Hoje também é dia de ressuscitar o blog adormecido
Acordei e pensei que hoje seria um bom dia para eu dizer
Se assim eu tivesse algo que contar

Mas que seja, que importa
Mesmo sem contraponto, eu conto
Conto vantagem...
Conto dinheiro...
Conto pelos dedos as vezes que escrevi depois da oficina

E não pode ser...

Por onde andam vocês?
O que têm escrito?
Que música ouvem quando acordam?
Que livros lêem antes de dormir?
Que sol é esse que vos ensombrou a escrita?
Que verão é esse que vos levou daqui?

Sem o que contar, eu conto convosco
Para que voltem vezes sem conta
aqui

Porque hoje também é dia

terça-feira, 17 de junho de 2008

Convite (transmissão de)

A Livraria POETRIA convida todos os que sentem a poesia "de todas as maneiras" para a apresentação do livro "Amanheceste em mim pelo poente", de José Custódio Almeida da Silva, no próximo dia 20/06/08, no Palacete Balsemão, pelas 21,30 h.

A Drª Maria Helena Padrão fará uma intervenção sobre o autor e serão lidos poemas com acompanhamento musical (guitarra clássica), seguindo-se uma sessão de autógrafos.

Informações: 222023071


POETRIA

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Dizer poesia

No "Câmara Clara", ontem, especial evocação de Pessoa e suave menção de esplêndidos outros, com a presença da fabulosa Germana Tânger, hoje com 88 anos.
Espero que tenham assistido.
Imperdível, de mágico.



GERMANA TÂNGER foi professora de dicção no Conservatório Nacional durante 25 anos. Apresentou o programa semanal «Ronda Poética», na RTP.
Em 1948 iniciou um longo percurso durante o qual divulgou por todo o mundo grande parte dos poetas portugueses, através de muitos recitais que realizou.
Em Novembro de 1999 fez a sua despedida artística no Teatro da Trindade, 40 anos após ter dito pela primeira vez a «Ode Marítima», de Álvaro de Campos.
Em Setembro de 2004 foi publicado pela editora “Assírio & Alvim” um livro-áudio, prefaciado por José Augusto França, com poemas de Almada Negreiros, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa, seleccionados e ditos por GERMANA TÂNGER, agora com a veneranda idade de 86 anos.
Trata-se de uma gravação ao vivo feita no Teatro S.Luiz no início da década de 1970, por ocasião de um recital de poesia e piano por Germana Tânger e Adriano Jordão.
Fonte NOVA CULTURA – Novembro 2004

domingo, 15 de junho de 2008

Dias iguais ou o desejo de outra coisa

Quando os dias parecem repetidos
Acordo com um sono simétrico
À preguiça de uma noite igual a esta
Quando me sinto nestes dias copiados
Quero coar as horas que escorregam
Para aquele espaço onde ponho o que não presta

Parece que conheço estes minutos
E quase adivinho o que se segue
Um tempo pardo sem cor
e sem sentido
Que insiste em correr determinado
Para este plágio de um dia já passado

Quando me sinto assim eu repetida
Tenho vontade de viver outra vida
Outra eu, outras tantas que eu fosse
Para outros lados que tanto eu
Me dirigisse
E tudo novo, tudo outro
E um outro dia

Outra Noite - Chico Buarque

domingo, 8 de junho de 2008

Regressar sempre a Mahler.
Nenhum outro, e foram tantos, trouxe a melancolia tão à superfície do mar. Nenhum outro, e como são inesquecíveis, trouxe o acorde da comoção de tão longe. Nenhum outro, e não os esqueças, levou a devastação da perda tão ao fundo da beleza.
“Wo die schönen Trompeten blasen” por Anne Sofie Von Otter no ciclo de canções “Des Knaben Wunderhorn” e todas as outras.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

COMO DESABITADO, O CORAÇÃO

Podem acontecer milagres. Podem
acontecer, e então a música decerto estará lá,
as palavras surgirão então, o sol, o girassol, a luz
que gira em torno de eixo feito de outra luz.
Poderia ser deus, ou paz.
Sentir. E de repente o mundo a acontecer,
o milagre do mundo a acontecer –
Milagres.

Lázaro em vestes brancas,
ausente o pó do quarto onde morara, entretecido
a morte e cheiros de planeta envelhecido.
A estrela nova nascendo dos seus pés.
Eis-me, em milagre e mudo.

Lázaro, a sua voz
em sinfonia muda

Ou a violência dentro do coração,
vibrando dentro do coração, ventrículo desfeito
por esta certeza: surgirão as palavras a seguir,
tão lisas e potentes como a música.
Milagres.

Podem acontecer.
Serão como a beleza das pirâmides, a
perfeição: onde pequeno seixo atravessado em falha?
Onde folha finíssima por entre as pedras, as siamesas pedras,
resistentes ao vento e ao deserto, a sua forma, a esplêndida,
a forma mais capaz de resolver enigmas?
Nessa folha finíssima, ou na pedra:
o mais puro milagre

Podem acontecer: junto ao deserto do gesto desumano,
o chicote, a tortura, o revólver bramando no vazio,
a mão que se detém, a boca que não grita,
Lázaro, a sua voz. Igual a música
Eis-nos, e mudos


O conhecer mais puro. O ar que traz os sons,
o tempo a transportar a luz. As estrelas já mortas,
de onde nascemos, a sua luz ainda. Aqui, junto de nós.
Habitar sem saber a mecânica quântica, igual
a habitação de coração.
O pensamento mais iluminado.
Saber da energia, o mais puro conceito.
Como Deus

Milagres. Podem ainda assim
acontecer ao longo do deserto, das fronteiras
erguidas, quase tocando o céu, como pirâmides.
De Rodes, o colosso dividindo, mas aberto aos navios,
o sândalo, a canela, especiarias, mais de mil cheiros,
saltos de gigante, pirateado o coração e o sol.
E ao seu lado, a voz humana:
Cal viva e uma paisagem de cacto e maravilhas.
Alguns

milagres.
Junto à vida amputada, à clave, à carne rota,
ao eminente apodrecer das cores:
capazes de fazer tombar ruídos longos,
e ficar só um timbre, mas mais que uma miragem,
um timbre, som de diapasão vibrando pelo tempo,
ou festa de Babel.
A estrela que morrera, a sua luz cruzando
o velho éter, já não éter, mas tempo

Anoitece, e está vermelho o sol ao lado das pirâmides.
Há-de ser isto o eixo de outra luz,
amigos a saudar-se, devagar,
ao lado do silêncio, hão-de surgir.
A eclosão de impérios. Cheiro o cheiro a marfim,
de sílabas tão brancas

Lázaro fala, pela primeira vez.
rouco de voz, primeiro, depois a sua voz:
Eis-me em milagre, mundo!

E o reconcerto abate-se na luz,
e um dedo basta para o reconforto. Um dedo.
As suas veias. Fio de cabelo ou pena de pavão
tornam-se sons, leve ponto de açúcar, se o vento de galáxia
os amacia. Podem então,
em longo desconserto


E encostada à música, essa palavra nova nascerá:
sina dos olhos que não viram nada,
mas com peixes ao fundo, multiformes,
a voz sem palco e tudo a acontecer,
Podem então, alguns deles então, acontecer,
a derradeira vez como
primeira vez -


Ana Luísa Amaral


Poema original, para todos.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Entrevista e Notícia

Também soube da notícia hoje. Espero que a Ana Luísa não leve a mal que eu (re)publique aqui a sua entrevista ao JPR (rádio do curso de ciências da comunicação). Está em formato de vídeo porque não sei como colocar audio no blogue. Também podem ler a notícia do JPN (ciberjornal do curso). E aproveito para fazer publicidade aos dois.

video

P.S.: O jantar correu bem? Tive imensa pena em não ir mas em semana de exames e entrega da trabalhos é difícil.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

LINDO!

Visto hoje, no "Global":

ANA LUÍSA AMARAL VENCE PRÉMIO!

O Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores foi atribuído ao livro “Entre dois rios e outras noites”, de Ana Luísa Amaral.
O júri tomou a decisão por unanimidade.
Nascida em Lisboa, Ana Luísa Amaral vive em Leça da Palmeira e é professora universitária.

E foi a nossa musa!
E uma "diseuse" fenomenal; uma inspiração.
Obrigada pelo tempo, carinho e... clandestinos cigarros!
Xi-coração!

quinta-feira, 29 de maio de 2008

JANTAR NO DIA 4 DE JUNHO ÀS 20.30

Olá a todos!
Na última sessão combinámos realizar um jantar de "fim de curso" no dia 4 de junho, quarta feira, pelas 20.30 no restaurante Casa de 3 . Podem ver a localização aqui.

A Ana luísa Amaral aceitou o nosso convite e vai estar presente.
Combinámos tambem trazer textos nossos para serem lidos no local ( quem quiser, é claro). Vamos ter uma sala só para o grupo, ou seja, privacidade garantida.

Pedia-vos o favor de confirmarem aqui a presença no jantar ou então enviarem-me um mail.
Qualquer questão ou sugestão digam...

terça-feira, 27 de maio de 2008

Segue o ofício na oficina ou fora dela?

Vivam.
Infelizmente não estive cá na semana passada. Há notícias sobre a continuação da nossa oficina?
Grande abraço
Joana Espain


A Sílaba
Toda a manhã procurei uma sílaba.
É pouca coisa,é certo:uma vogal,
uma consoante,quase nada.
Mas faz-me falta.Só eu sei
a falta que me faz.
Por isso a procurava com obstinação.
Só ela me podia defender
do frio de janeiro,da estiagem
do verão.Uma sílaba.
Uma única sílaba.
A salvação.
de Ofício de Paciência


Eugénio de Andrade

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Sessão de hoje

Olá a todos!
Só cheguei sábado a Portugal por isso estou um bocado confusa com estas trocas de sessões. A de hoje é para ser a última?
Infelizmente acho que não vou conseguir ir, pelo menos não a horas porque tenho muito para recuperar, mas se não fosse a última era menos dramático.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Poesia também pode ser isto

Amanhã assistiremos à "master class" da nossa musa mui querida Ana Luísa Amaral.
De tanta alteração de agenda, e para os mais distraídos ou incontactáveis, recordo que o "rendez-vous" é às 19h15m (!...) - deve ser para começar um bocadito depois - ; ele há o trânsito, o estacionamento, o ginásio, o lanche, o expediente burocrático a encerrar, e mil outras coisinhas que, como sabemos, provocam aquele extraordinário abre/fecha da porta, intercalando o discurso da mestra.
Noite de adeuses.
Planos para cear?
Um copo?
Dois; mais?
It's up to you (us) all.

sexta-feira, 16 de maio de 2008


Shubert nas águas, nos pássaros Mozart,
Goethe assobiando pela senda serpejante,
Hamlet em seu passo assustadiço a cogitar
- À turba tomavam o pulso nela acreditando.

Talvez antes dos lábios o murmúrio já nascera,
Sem arvoredo caísse a folha baloiçada.
A quem a dádiva de uma obra se faria
Antes da obra já tinha forma traçada.

Ossip Mandelstam,1934

quarta-feira, 14 de maio de 2008

SESSÃO EXTRA - 21 MAIO, 19.15

Boa tarde a todos.
Hoje recebi um email da reitoria com a data da sessão extra do nosso curso.
Para quem não recebeu o email fica a informação:

DIA 21 DE MAIO, 19h15m
sala de formação da Reitoria da Universidade do Porto (3º piso - sala 325)

Quanto a sessão do dia 28 de Maio ( segunda sessão extra proposta pela Ana Luísa Amaral), não tenho mais nenhuma informação.

Não vai haver sessão nesta sexta-feira?

Gostaria que alguém me esclarecesse acerca da(s) próxima(s) sessões.
Estava convencida que era na próxima sexta-feira, mas parece que houve alteração e eu não
fui informada. Se alguém puder dizer-me as últimas novidades sobre o assunto... Obrigada.

terça-feira, 13 de maio de 2008

No rasto da musa...ou a musa está de rastos

Rápida e sem pensar escrevo
Palavras inquilinas
Que me moram
E desbotam em restos
Deixando rastos de sei lá
Ou de quase nada

Quanto demoram a subir…
Tanto tempo!
Tanto custo!
Tanta linha!
Para viverem tangentes
À superfície da folha

Rápida e sem pensar rebusco
O rabisco que trago
Dentro do desperdício de dentro
Algo que ainda possa
Reciclar

Réstia de gente talvez,
Talvez um qualquer segundo
De uma qualquer terceira intenção
Algo que resgate
A palavra viscosa
Que escorrega de mim
Para cair longe e rente
A uma folha branca
Que rapidamente….rasgo!

domingo, 11 de maio de 2008

Ser

Porque foi breve e insuficiente.
Porque só se declarou desconhecimento, e vontade do contrário.
Porque tudo está para saber.

À Ana Luísa Amaral, musa.
A todos, formidáveis desconhecidos, agregados numa interrogação lírica. Humana.

Extracto de uma crónica do Miguel Esteves Cardoso "A única natureza é a humana":


(...)"A ignorância humana é certamente mais nefasta que a consciência limitada dos outros animais ou a inconsciência dos outros seres vivos – mas a capacidade humana de se ultrapassar é também a grande esperança. No dia em que se consiga fazer a síntese da religião e da filosofia, praticamente aplicável, como há tantos séculos se vem tentando fazer, o Mundo poderá ser mais do que é.
O erro é abdicar do estudo, do pensamento, da devoção – o maior perigo é a facilidade. E a natureza é a coisa mais fácil e enganadora de todas. A única natureza é a humana."

A Magnólia, o som que se desenvolve nela

Em jeito de despedida, para todas as mulheres, tão belas, do grupo da Escrita Criativa, a Magnólia pela Luísa Neto Jorge



Um beijo

Renato

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Música e Poesia



E porque hoje é sexta. E se não fosse sexta era outro dia qualquer, onde a música como nada mais o faz, convida a poesia a sair à rua (não fosse a música a forma mais popular de dar a conhecer a poesia). E qual é o mal de ser popular? Retira-lhe o valor? Ou não será fantástico que sejam os acordes, as melodias e o timbre de uma voz a definir os "códigos" desta arte tão ligada aos sentimentos. Aqui sim, definitivamente trata-se sobretudo de uma questão de gostos.
Lembro-me de na primeria sessão do curso, a Marlene falar do Chico Buarque, músico e letrista do qual eu partilho a admiração ( aliás sou grande apreciador da MPB e enormemente influenciado pelas suas canções-poemas). E se calhar com isto, lançar o debate sobre as ligações entre a música e a poesia, que com o início das transmissões radiofónicas nos anos 20 e a explosão dos meios de comunicação audiovisuais da segunda metade do século XX assumiram-se como um meio de formação e recriação massificado.

_________________________

FUTUROS AMANTES

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

quinta-feira, 8 de maio de 2008

As musas na vitrine

Depois do nosso jantar
E sem sequer ter a desculpa do copo a mais
que não houve
(apenas a embriaguez dos poemas que ouvimos)
Caminhei por cedofeita
E os manequins das lojas de roupa
(musas modernas porreirinhas e estáticas como convém)
inspiraram-me esta "coisa" que aqui deixo


Bárbaras Barbies

Maquilhadas e prontas
Descobrem as montras
E seguem nuas e ai… tão tontas!
Vestidas de roupas que as descobrem

Aí vêm as Barbies
Descendo a escada do Shopping

Rijos marmelos de silicone consistência
Cinta de vespa com insistência
do health club
Na pele, o pêssego de penugem depilada
Nos lábios o gloss
de cereja nº. 2
Nas maçãs, o rosto que só cora de blush
Fruta transgénica, modificada

Aí vêm as Barbies
Descendo a escada do Shopping

Do alto dos saltos chegam superiores
Encarnam notas fora do tom
Abanam, estremecem, deslocam-se em vapores
O riso encarnado em estilhaços de baton

Aí vêm as Barbies
Descendo a escada do Shopping

Bárbaras Barbies
Aspiram ser alguém
Entre as mulheres
Benditas sois vós
Bendito o vosso ventre
Fruto da lipoaspiração

mais 4 sessões?

olá a todos:)

como faltei à última sessão fiquei sem saber se vão ser acrescentadas ao worshop aquelas 4 sessões extra que tinhamos falado na semana que passou.

alguém me sabe dar a certeza relativamente a este assunto?

obrigada

Ana

Para a turma



O LIVRO DA FELICIDADE

Para o Rui


Para o António

Para o Renato


Para a Ana Luísa Amaral


Para a Ivone


quarta-feira, 7 de maio de 2008

Dado o incêndio que ocorreu ontem na reitoria, não tenho a certeza se há sessão hoje. Alguém sabe?

Marta

A gente vai continuar?

"(...) Enquanto houver estrada p´ra andar
a gente não vai parar
enquanto houver estrada p´ra andar
enquanto houver ventos e mar
a gente vai continuar
enquanto houver ventos e mar (...)"
Jorge Palma - A gente vai continuar

Tal como a Joana Espain disse, não podemos terminar agora...
Para mim seria o mesmo que me darem um brinquedo para as mãos e, agora que o desembrulhei, li o manual de instruções e começava a brincar, mo arrancassem para devolve-lo à caixa e à loja.
Ficamos todos de dizer aqui no blog se concordamos que o workshop duplique ou pelo menos continue por algumas sessões mais. A Joana, eu, a Ivone já votarão SIM...quem mais?

Vamos continuar...

Vivam

Gostei muito dos poemas. Mal tenha mais tempo vou lê-los com a atenção devida (quero fazê-lo com calma) e tentar (não sei se o saberei fazer) comentar. Acho óptima esta partilha. Para dar continuidade a este espírito, deixo aqui timidamente alguns que tenho, tortinhos, de rimas fáceis e tontas, mas inevitáveis (os poemas) para mim. Estão em www.sonscinzentos.blogspot.com. Adorei entretanto o blog do Renato.

Gostava também de perguntar se seria possível levar uma colega, que gostaria de conhecer o Pedro Tamen, para a primeira parte da aula de hoje...

Finalmente pedia que se concretizasse uma proposta de continuação do curso...Este não é um bom momento para o curso acabar:)

Um grande abraço a todos

Até logo

DO SILÊNCIO, DAS PALAVRAS, DOS CONVITES, DA ALEGRIA

Desculpem tanto silêncio – estive doente até Domingo! Ontem, quando já estava bastante melhor, recomeçaram as aulas, as reuniões, os compromissos de trabalho. E só agora, e a esta hora, consegui um bocadinho de tempo.

Tentei enviar comentários a todos os poemas, embora só o tenha feito relativamente ao que “postaram” desde a última sessão – não consegui responder individualmente a tudo o que já foi sendo colocado no blogue.

Ele vem, o Pedro Tamen. Os estragos não foram, felizmente, tão graves como poderiam ter sido. Amanhã (daqui a pouco) lá estaremos todos na mesma sala. Tragam questões para colocar ao Pedro, eu vou pedir-lhe que leia poemas, o que ele faz esplendidamente.

Marlene, uma palavra especial. Achei estupendos os seus comentários aos poemas dos colegas. E acho que eles suscitaram outros comentários, o que é excelente. Que não se perca esta forma de comunicação!

Tem sido um enorme prazer estar convosco. Obrigada.

Pedro Tamen

ESCREVO-TE DE PERTO

Escrevo-te de perto, como se a mão
te fosse objecto breve aflorado,
como se da rua te chegasse
a certeza pequena para a compra
dos minutos seguintes. De perto
como o sol, como a cigarra.
Como um silêncio cheio
que te viesse aos olhos de manhã
e amar-te fosse a roupa
escolhida ao começar o dia.

_____________________

AMAR-TE É VIR DE LONGE

Amar-te é vir de longe,
descer o rio verde atrás de ti,
abrir os braços longos desde os sete
anos sobre a latada ao pé do largo,
guardar o cheiro a figos vistos lá,
a olho nú, ao pé, ao pé de ti,
parar a beber água numa fonte,
um acaso perdido no caminho
onde os vimes me roçam a memória
e te anunciam mãos e te perfazem;
como se o sino à hora de tocar
já fosse o tempo todo badalado,
e a tua boca se abrisse atrás do tojo,
e abaixo dos calções as pernas nuas
se rasgassem só para o pequeno sangue,
tal o pequeno preço que me pedes.
Atrás da curva estavas, és, serias,
nos muros de granito, nas amoras.
Amar-te era lembrança e profecias,
uma porta já feita para abrir,
e encontrar o lar ou música lavada
onde, se nasces, vives, duras, moras
- meu nome exacto e pão
no chão das alegrias.

_______________________

UM FADO, PALAVRAS MINHAS

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

terça-feira, 6 de maio de 2008

bom dia a todos.
infelizmente, a semana passada não pude estar presente na sessão. gostaria de saber se houve "tpc" para amanhã.

obrigada.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Textos de Isolina Carvalho

BAILADO DE OUTONO INCERTO

Eu cantarei de amor tão docemente
Como o silêncio inquieto
Rio que corre lentamente
Bailado de Outono incerto

Desta alma se faz o meu tempo
Desse tempo se faz meu pensar
Procuro no tempo que invento
Sem desistir de te encontrar

A lua cavalga os meus ventos
Por entre as montanhas partidas
E impactos de duro silêncio

Enquanto invento meu tempo
Construo as mágoas sofridas
Como chamas de um incêndio

Isolina Carvalho


AUSÊNCIAS

Vazia era a casa
Habitada de ausências
De roupas inúteis
De sapatos vazios e absurdos
No seu modo de estar
Á espera dos fantasmas
Que ninguém vê
Que se escutam e inventam
Pelos corredores sombrios
Duma memória distante
De alguém que se tornou ninguém
Na mentira de existir.
Tempestuosas memórias
De ventos agrestes
Cortantes como vidros
Em noites geladas
E ensurdecedores silêncios
Enchem de ruído a casa quase assombrada.
Tu vens dos confins do tempo
À luz branca dos relâmpagos
Facas levadas ao rubro
Rasgando o céu sombrio
As tuas vestes vermelhas
Arrastam-se pelo chão
Encharcado de chuva
Enquanto eu tombo em silêncio
No ponto crepuscular do não ser.

Isolina Carvalho


AROMA DO MAR E DE TI

Há muito que te espero
Em qualquer lugar
Sem que vislumbre luz ou presença
Mesmo anónima que seja
Mesmo que subtil aroma
De madrugada orvalhada
Ou vindo de mar distante
Sabor de fruto perdido
Nos confins do nada
Vogando em calmas águas
Empurrado por vento sibilinoque ri e chora
De ti e por ti
Em embarcação ondulante e frágil
Como barquinho de papel
Em fundo azul
Brincando com o mar

Isolina Carvalho


SOLIDÃO

Pergunto por ti ao vento
Procuro em tudo sinal de ti
Mas perdido estás algures no tempo
Para que não te encontre
Ou te sinta respirar perto
Iludo-me com o cheiro perfumado
Das flores silvestres que apanhaste para mim
Nos campos desertos e imensos
Povoados de papoilas vermelhas
Belas, berrantes e agressivas
Mas continuo só
Em solidão redobrada
Debaixo de um céu vazio, apesar de azul
Sem ti tudo é inútil e frio
Tudo é o nada
Levado à solidão máxima
De quem nada tem
Mas que também nada quer
Além de ti

Isolina Carvalho


O SER E O SONHO
OU O SONHO DE SER

Voltei-me à procura do tempo
Pendurado na imensidão dos séculos
Erigido em monumentos sumptuosos
E em ruínas de cidades.
Poéticas eram as folhas
Que caíam de árvores centenárias
Cobrindo de todo o chão da estrada
Nascida algures na história
Para estranhas caminhadas.
Uma imensa procissão
Lenta
Anónima
Silenciosa
Dirige-se em direcção ao sol
Objectivamente acrítica
Exasperantemente dócil!
Procuravam Deus – ouvi dizer
Olhei em volta mas não vi ninguém
Uma voz andava pelo espaço
Como que perdida
Como que sem dono.
Um menino soprava na água barquinhos de papel
Indiferente à procissão que passava
Indiferente ao mexer de folhas secas.
A enorme totalidade de silêncio
Arrastava-se indefinidamente
E o menino sentado junto à água
Percorreu os rios e fez-se ao mar
Num gigantesco barco de papel
Soprado por um monstro
Que o levava para longe.
Perdida a sintonia com o tempo
Navegava pela imensidão dos mares.
Mas o tempo voltou
E com ele uma nova história dos homens
Entretanto como crescera!
Olhou de novo a multidão anónima
Que continuava a sua inútil caminhada
Em direcção ao sol
Tinham-se enganado no caminho! - pensou
Já nada se pode fazer por eles
A não ser recria-los.

Isolina Carvalho


NOITE SOMBRIA

Eterna como a noite dos tempos
È a tristeza que passa por nós
No caminho ao entardecer
Senti-la na pele é afago
De suspiro mal sentido
De fogo que mal queima
De mar que se afasta para longe
E leva consigo a certeza
De eu nada ser
E do grito estrondoso
Do silêncio
Que parou no tempo
Do vento

Isolina Carvalho


DESPEDIDA

Não chames por mim porque parti
Deixei para trás vestes fulgurantes
Perdidas no caminho
Em manchas sedosas e vermelhas
Á mistura com folhas fascinantes
De todos os Outonos
A tarde é resplandecente da tua ausência
E eu fui-me embora

Isolina Carvalho

Musa (de novo)

Муза


Когда я ночью жду ее прихода,
Жизнь, кажется, висит на волоске.
Что' почести, что' юность, что' свобода
Пред милой гостьей с дудочкой в руке.

И вот вошла. Откинув покрывало,
Внимательно взглянула на меня.
Ей говорю: "Ты ль Данту диктовала
Страницы Ада?" Отвечает: "Я".

À MUSA

Quanto, à noite, espero a tua chegada,
a vida me parece suspensa por um fio.
Que importam juventude, glória, liberdade,
quando enfim aparece a hóspede querida
trazendo nas mãos a sua rústica flauta?

Ei-la que vem. Soergue o seu véu,
olha para mim atentamente.
E lhe pergunto: "Foste tu quem a Dante
ditou as páginas do Inferno?". E ela: "Sim, fui eu".


1924 - Anna Akhmátova

E agora?

Estou devastada com o que sucede na Reitoria, nossa casa de letras, de encontros, de descobertas e do mais.
O Rui, em Praga, assusta-se; eu, cá em baixo, nem tenho coragem de subir...
O fumo chega a Stª Catarina.
E agora, onde, o círculo derradeiro (parte I) e o terno Pedro Tamen?

sábado, 3 de maio de 2008

petição contra o novo acordo ortográfico.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Soneto adulterado

Eu viverei aqui tranquilamente
quando sentir bem longe esta saudade
esse suave e duro sentimento
que toma o meu viver, a minha idade

Liso lençol azul rema à distância
marcada em ondas líquidas de mar
longo é o horizonte da minha infância
que em meros sonhos anseio alcançar

Agora quero ousar teimosamente
e nesse cais da memória embarcar
quero escutar a voz da minha gente

Nos laços da família me enlear
deixar correr uma lágrima ardente
feita à espera na praia deste olhar

TPC em atraso

Uma ideia em concreto

Conciliar dramas
ser alvo de morte
em função da glória
e obra do mais forte

Difíceis problemas?

Destacar essa ideia
revela o fosso insuperável
que é eleger a guerra
como garante da paz

Seja em idiomas traduzido
seja em religião sentido
o profeta também se esgota
e essa ideia em concreto
sobrepõe-se à ficção
e revela o fim da vida

A sua última estação

Se o melhor dos mundos possíveis fosse realidade

Se o melhor dos mundos possíveis fosse realidade, eu

Pediria à minha musa
pra me ditar um poema
feito com letras de vida
e acentuações banais

talvez bastasse, nem mais

estrofes sem qualquer métrica
dos versos a redondilha
maior para os sentimentos
pautados por rimas raras
em alexandrinos gestos

perfeita sonoridade
solta em texto no momento
tecido em soneto branco

Entre o físico e o transcendente

A pensar na dimensão paralela onde se inscrevem os poemas
E nesse tempo distinto que não vem assinalado
no relógio, no calendário, na agenda
A pensar nesse estado especial de ser, mais do que estar a ser
A pensar em tudo o que dizemos nas nossas sessões de 4ª à noite
Que me retiram também do meu tempo
contado, calendarizado, agendado
E me fazem andar sem ver por onde ando
e chegar a casa sem saber quem me levou
A pensar na palavra com cheiro
E na magnólia desfolhada em letras
A pensar como na verdade a poesia mora algures
num tempo e espaço entre o físico e o transcendente
A pensar em tudo isto...envio mais um poema, dos muitos que gosto tanto


Sobre o Poema de Herberto Helder

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo.
Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

— Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

um testemunho

É verdade! De facto, em variados aspectos, para mim o curso está a ser uma aventura bem prazeirenta. E porque às vezes arrependo-me por calar, ( claro que noutras arrependo-me por falar), convem dizer, sem um certo tipo de pudor paralizante, que sinto-me privilegiado por fazer parte deste grupo. Gosto da sua heterogenidade, inspiram-me as opiniões de cada um (quer concorde ou não), enternece-me os seus silêncios. Talvez, de uma certa forma, sinta segurança com a diversidade sugerida. Sei que é curto este tempo em conjunto, na medida em que o que possa aprender com a nossa dedicada formadora e com as experiências de cada um dos meus colegas é apenas um pequena gota das várias águas que seria possível beber dentro de um grupo como este.
Isto afinal, para responder que gostaria de expandir o curso para as sessões que forem possíveis, conforme falado na última aula. (Nas quartas feiras de preferência).

Outra coisa é este blog. Cumprimento aqueles que já escreverem, e desafio aqueles que por qualquer tipo de inibição ou receio de exposição ainda não participaram.
Partilho então um pequeno texto que tenho na "gaveta", pretendendo tambem dar o meu testemunho sobre as mil e uma caras (e máscaras) do poema.

Deixaria ainda uma sugestão: Alem de analisarmos poemas da Ana Luísa Amaral ( o que ficou por fazer na última aula), atrevo-me a sugerir, quem sabe, a discutir um dos poemas, que de certeza, cada um de nós tem guardados num local secreto. Afinal uma "oficina de escrita criativa" tambem passa por aí. Concordo que não é possível ensinar a escrever, mas é crucial entender aquilo que não resulta e não deve ser seguido ou aquilo que está a mais. E quem sabe salientar algum verso ou sentido que produza um efeito relevante ou sentido poético.
Não sei! é uma ideia. Pela minha parte não fico melindrado com as críticas, aliás ficaria agradecido de as receber. Acho mesmo que me é vital nesta fase de aprendizagem.

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AQUELE BEIJO

Aquele olhar não é triste
É o meio de amansar um desejo.
Triste é não acreditar
Que merece aquele beijo.

Um beijo não é um prémio
Tão pouco uma aprovação
São duas bocas
São dois lábios
São duas da tarde
E o Senhor Juiz esta almoçar
Não tinha nada que provar,
A não ser...
Aquele beijo.

A saliva animal do desejo dele
Cola na nitidez do desejo
Brilhante da quase carne
Dos lábios dela.
-Como é seguro o seu aroma.
Pensou ele de olhos fechados,
E beijando-a
No escuro
Abriu-se a porta do estábulo,
E beijando-a
Ao sol
Viu a ossura do cavalo a correr
Livremente.

O amor estava lá
Mas não se falava dele.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

É claro...

À Ana Luísa Amaral

Pelo entusiasmo com que abraçou este projecto de introdução à forma das palavras, à magia do contexto, à combinação de artes.
Pela generosidade de ouvir.
De partilhar e corresponder.
Pela alegria (coisa imensa).
Por todos os mundos que entreabre.

E por estar disposta a tornar.

Hoje e agora, com especiais votos de melhoras.
E um abraço grato.


Alegria da escrita

Para onde corre esta corça escrita pela mata escrita?
Beber da água escrita
que reflectirá o seu focinho como o papel químico?
Porque levanta a cabeça, ouvirá algo?
Sobre as quatro patas pela realidade concedidas,
debaixo dos meus dedos, apura o ouvido.
A palavra silêncio vai farfalhando no papel
e afastando
os galhos pela palavra “bosque” suscitados.


Por cima da folha branca, agacham-se para saltar
letras que se podem dispor mal,
frases que acuam,
das quais não escapa.


Numa gota de tinta há vários
caçadores de olhar franzido
prestes a correr caneta abaixo,
cercar a corça e fazer pontaria.

Não sabem que estão fora da vida real,
que neste preto no branco há outras leis.
Um pestanejar dura tanto quanto eu queira,
posso seleccioná-lo em pequenas eternidades
cheias de balas imobilizadas no ar.
Se eu assim dispuser, nada te acontecerá.
Nem uma folha cairá sem a minha vontade,
Nem um cisco se vergará sob o casco de um ponto final.

Será que há um mundo
cujo destino dependa do meu poder absoluto?
Um tempo acorrentado pelas minhas letras?
Uma realidade que persista por minha ordem?

Alegria da escrita.
Oportunidade de eternização.
Vingança da mão mortal.


Wislawa Szymborska, 1967


Alguns gostam de poesia

Alguns –
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam –
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia –
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

Wislawa Szymborska, 1993


É claro

É claro que não dizia o que realmente pensava,
pois os mortais merecem respeito
e os segredos da nossa miséria carnal
não podem revelar-se na fala nem na escrita.
Aos vacilantes, fracos e inseguros foi dada uma tarefa:
erguerem-se dois centímetros acima da sua própria cabeça
e dizerem a quem desespera:
“eu também chorava assim a minha sina”.

Czeslaw Milosz, 2000

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Se...

Para a Ana Luísa, com um ramo de flores de pedido de desculpas... o trabalho de casa:


Se o melhor dos mundos possíveis fosse realidade, eu não nasceria a escrever sonetos, mas morreria a saber juntar palavras em disjunções belas, que ficariam gravadas em pó e vento e circulariam sem poiso, beira nem eira por todos os sítios que, em matéria, não toquei.

Fluídos

Eu cantarei de amor tão docemente
Durante um momento fugaz e ardente
No ar ausente pairas incendiado,
Beijo, trémula latejando fado

Eu gritarei de amor tão loucamente
Quando te encontre em meu leito candente
Olhar febril recorre veemente
As tuas mãos em mim suavemente

Sinto o teu odor no peito trespassando
Os teus cabelos em mim sussurrando
Amor, com os teus sons inesperados

Relincham fluídos varando ocasos
Exaltando das profundezas, ondas
Batem convalescentes e redondas.

Duplicação da escrita criativa

Boa tarde

Gostei bastante de um poema de Pedro Tamen que começa assim:

'Por mais que tente escapar-me
com meneios de felino,
de nada vale esse charme:
não tarda e quino.'

E porque quinar quinamos todos que tal fazer um pouco mais do que gostamos e duplicar este curso de escrita criativa. Propunha que se discutissem disponibilidades hoje na aula (sessão:).

Até logo

Joana

terça-feira, 29 de abril de 2008

De volta ao Plano Inclinado

Os comentários da Marlene e da Ivone ao Plano Inclinado obrigaram-me a responder. Pretendo com esta resposta também reconhecer a justeza das críticas da Ivone à falta de rigor na minha escrita, motivada por um controlo grosseiro do plano e da velocidade das palavras. Acredito mesmo que foram o atrito e a inércia, que desprezei por simplificação, que fizeram com que o livro ainda não tivesse encontrado editor.



Inclinei-me por cima da escrita para a ler de soslaio, distraí-me, desequilibrei-me e caí por sobre o plano que ruiu com estrondo. Enfiei a haste dum h retardatário no olho direito e gritei bem alto "foda-se, foda-se", e com o balanço subi a cómoda, que virou de pantanas o quarto. Molero aproveitou a balbúrdia para entrar em cena e frisar bem que aquela deixa era dele. “Vai-te tu embora que esta história não é a tua”, ripostei eu com firmeza.

“É bem feito”, diz a Ivone, aproveitando também a minha fraqueza, “bem te disse para teres em conta o atrito e a inércia do h. Bem sabes que o h é uma letra preguiçosa que tende sempre a ficar para trás. Ele bem empina a haste para não tropeçar mas, mesmo assim, não pode competir com o o ou com o a.”

Mas o meu principal problema, depois de me ter levantado do meio dos escombros, era o que fazer com o plano ruído. “Talvez música concreta.” grita lá do fundo em tom de desafio Molero, que aproveitara a minha atrapalhação para se não ir embora.

These are merely instances

I am what is around me.

Women understand this.
One is not duchess
A hundred yards from a carriage.
These, then are portraits:

A black vestibule;
A high bed sheltered by curtains.

These are merely instances

Wallace Stevens, “Theory”



Muito boa tarde!

“Cá estamos nós outra vez, / (…) em frente do público da poesia”, como diria Nanni Ballestrini! Um belo poema, chamado “Pequeno louvor do público da poesia” (se quiserem, encontram em
http://www1.ci.uc.pt/poetas/poemas/nanni.htm)

Desculpem tanto silêncio, mas estive sem acesso à Internet desde Quinta-feira, cheguei no Sábado e ontem dei aulas todo o dia… Só agora tive um bocadinho para vir aqui, a este nosso site (ou sítio, como agora se diz) fantástico.

Tenho uma má notícia: a Ana Paula Tavares está doente, cheia de febre, e não pode vir amanhã. O Pedro Tamen, em contrapartida, está confirmadíssimo para dia 7 De Maio e, como já vos tinha dito, a Maria Teresa Horta vem à FLUP no dia 23, também de Maio. Amanhã digo que poemas gostava que lessem do Tamen (melhor, já posso ir dizendo: são os que estão num site que ele agora tem, que se chama

http://www.arscives.com/pedrotamen

O TPC, para responder à pergunta da Marlene, é assim: escrever várias frases a partir desse mote. Por exemplo:

“Se o melhor dos mundos possíveis fosse realidade, eu nasceria já a escrever sonetos que fossem perfeitos”, ou

“Se o melhor dos mundos possíveis fosse realidade, eu transformava tudo o que é soneto em verso livre”, ou

“Se o melhor dos mundos possíveis fosse realidade, Shakespeare escrevia a pé coxinho em vez de pé jâmbico”...

Brinco, claro, mas, mais uma vez, este exercício tem como objectivo o desbloqueamento :) :) Era engraçado se as frases estivessem todas relacionadas com poesia (e não se produzissem coisas do tipo “Se o melhor dos mundos possíveis fosse realidade, toda a gente vivia em paz”).


Amanhã, estaremos só connosco. E falaremos dos poemas que escreveram, de poesia – e escrever-se-ão poemas também.

P.S. Recordam-se da sugestão do Renato de que lêssemos (analisássemos) um poema? Ninguém disse o que achava…

Dúvida

Olá a todos,

Obrigada pelos poemas que têm partilhado.
Sabe bem vir aqui ao fim do dia espreitar.

Em relação à nossa próxima sessão de poesia criativa tenho uma dúvida:

Não percebi bem a tarefa para casa. Tenho uma lista de frases todas iguais:
"Se o melhor dos mundos possíveis fosse realidade, eu...."

o objectivo é obviamente completar, mas são 7 frases iguais....alguém me pode esclarecer sobre o que fazer?

Obrigada e até amanhã

domingo, 27 de abril de 2008

A Musa

Como viver com esta maçada,
E ainda lhe chamam Musa,
Dizem: "Tu e ela nos prados..."
Dizem: "O murmúrio divino..."
Abanará mais duro que uma febre,
E de novo o ano inteiro caladinha.

Anna Akhmátova

sábado, 26 de abril de 2008

O plano inclinado

Confesso que há muitos, muitos anos escrevi algumas coisas que se poderiam etiquetar como poemas. Mas isso foi há muito e desde aí, se tem havido alturas da minha vida em que escrevo, mais ou menos, tem sido sempre em prosa, ainda que alguns textos se possam (poderão?) identificar como prosa com alguns contornos poéticos.

É o caso do texto "O Plano inclinado" que não resisti a colocar aqui no blog. Era o primeiro texto de um livro de pequenas histórias, com o mesmo título, que está guardado, porque nunca consegui publicar. O texto poderá fazer sentido aqui porque um dos temas de discussão tem sido a escrita. Porque acontece a escrita e quando acontece. A minha "musa" é afinal um simples plano inclinado. Espero que vos divirta, pois apesar de antigo, continua a ser um dos meus textos de que ainda gosto.


O plano inclinado

Para Galileu Galilei,
por razões óbvias

Passou-me recentemente pelas mãos um velho livro de Física.
Ao folheá-lo, fui atraído pela descrição das experiências efectuadas pelo velho Galileu com o plano inclinado.
Galileu fez escorregar esferas de diversos tamanhos e diversos materiais por um plano inclinado com diferentes inclinações.
Estas experiências permitiram-lhe constatar que :
- a velocidade que as esferas atingiam não dependia do tamanho, nem do material de que as esferas eram feitas;
- a velocidade atingida só dependia da inclinação do plano, aumentando com esta.
Estes resultados obtidos por Galileu, que eu já conhecia, mas que estavam enterrados algures nas profundezas da minha arca de memórias, despertaram em mim uma ideia: se o plano inclinado tinha resultado tão bem, independentemente do material de que eram feitas as esferas, porque não experimentá-lo com palavras.
Experimentei então escrever num plano inclinado com esfero(gráfica). As palavras escorregavam a uma velocidade constante.
Reparei que quando inclinava mais o plano de escrita a velocidade das palavras aumentava até se tornar incontrolável e as palavras caírem em catadupa e se partirem, resultando em textos de pé quebrado e sem sentidos. Tentava então em vão colá-los e reanimá-los.
Ajustei por fim a inclinação do plano para conseguir uma velocidade ideal para as palavras, que me permitisse recolhê-las em ordem numa folha de papel branca, estendida com todo o cuidado ao fundo do plano.
Depois de acertar a inclinação certa, as palavras deslizavam umas após as outras e enchiam depressa a folha de papel.
Mas um outro problema surgiu de imediato: a mudança de folha de papel quando uma ficava cheia.
A princípio eu não era suficientemente rápido e algumas palavras perdiam-se. Tinha de procurá-las uma a uma, pois espalhavam-se pela mesa de trabalho e pelo quarto.
Ainda no outro dia, ao espreitar debaixo da cama, encontrei um ‘espelho’, coberto de cotão. Limpei-o cuidadosamente até de novo reflectir e coloquei-o em cima da cómoda. Utilizo-o todas as manhãs, quando me penteio.
Só depois de muitas tentativas e de muito treino consegui aperfeiçoar a técnica de mudar a folha de papel com a velocidade que a manobra exige.
Acabei também por me tornar exímio na arte de controlar a velocidade das palavras, à custa de pequenas variações da inclinação do plano.
Enquanto me não tornei perito nessa arte difícil da escrita em plano inclinado, tenho de confessar que fazia batota e preenchia o fim da folha com espaços.
Consegui desta forma aumentar a dimensão do meu quarto, à custa de uns quantos espaços perdidos, caídos fora da folha, que depois soprava para o chão.
Hoje, alguns anos depois de treino continuado, perco em média duas palavras por cem folhas de papel A4, sobretudo as palavras esdrúxulas com mais de quatro sílabas, que são as mais complicadas de controlar.
Com essas palavras perdidas estou a criar um reservatório de palavras difíceis, que poderei vir a utilizar no futuro, se as palavras me faltarem. Poderão ser muito úteis, especialmente se pretender vir a escrever poesia modernista.

As folhas cheias de palavras que preenchem este livro foram obtidas com a ajuda de um plano inclinado, calibrado para a língua portuguesa.






sexta-feira, 25 de abril de 2008

entrevista com Ana Luísa Amaral no Diário de Notícias de hoje, dia 25 de Abril.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Busque amor, novas artes, novo engenho

Busque amor, novas artes, novo engenho
para lá do seu velho desempenho
busque novos inadiáveis muros
e engenhosos caminhos seguros

Grande é o engenho do homem
que o eleva em pleno planar
sob a pedra que o caminho lança
essa que só vê a sua criança

E artes e amores em aperto
embalados em malas portáteis
aguardam entretanto conserto

Homem novo, velho, velho, velhinho
que roda sobre si com a terra
sempre à volta da mesma pedra








Vivam. Sobre a outra (mesma) pedra, um desses tais modernistas :) que se trai aqui em sentimento num poema de que gosto bastante:


No meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade


Um grande abraço e um bom 25 de Abril.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Ficção (palavras emprestadas)

ficção marcante
o romance

particular afecto
cansado

angústias interiores
múltiplas contradições

a realidade
é invenção

fascinante
profeta espiritual
de consciência aguda.

INCOMPLETO

Busque Amor nova arte, novo engenho
Porque o que nos habita esmoreceu
Invente outra alegria, outro empenho,
E leve o que aqui já feneceu

Ajuíze, em mil voos – tantas flechas –
Os seres que cativa, desarmados
Os sonhos que os povoam abrem brechas
Espalhando desejos aos bocados

segunda-feira, 21 de abril de 2008

de estocolmo

Desculpem o silêncio, mas estive todos os dias ocupada com leitura e tradutores. Mas agora, tive um bocadinho e vim aqui. Marlene, Joana, Rita, gostei dos sonetos e dos poemas. Acho que têm que pensar na questão da surpresa verbal -- que é fundamental na escrita. Estou mesmo convencida de que isto é um espaço fantástico! Por exemplo, o poema do Gilberto Gil levanta questões muito interessantes.

Renato, não sei o que pensam os colegas. Querem responder à sugestão do Renato? Por mim, faço o que quiserem...

Não se esqueçam de ir ver o nome da poeta que nos vem visitar na próxima Quarta: Ana Paula Tavares. E de pensar em perguntas. Ainda hoje (espero), vou colocar alguns poemas aqui.


Um abraço,

ana luísa

P.S. Acreditam que as instruções do blogue me aparecem todas em sueco?! Renato, isto será normal?

domingo, 20 de abril de 2008

Metáfora ou a lata poética

Ontem fui ver o concerto do Gilberto Gil - "Luminoso" que, foi de facto, iluminado.
Foi uma apresentação intimista...apenas voz e violão sem mais adornos, que aliás não seriam necessários, pois a presença daquela voz transbordava do palco.
No meio das canções, uma sobre os Poetas e as suas Metáforas, que partilho com vocês:

Metáfora de Gilberto Gil

Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível
Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível
Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível
Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora

sábado, 19 de abril de 2008

A Letter is a Joy of Earth / It is denied the Gods

Isto é de Emily Dickinson, como poderão imaginar (e, porque Dickinson tem estas elipses na sintaxe, no segundo verso deve ler-se "it is denied to the Gods"). Com esse quase aforismo, eu queria exprimir o meu contentamento com este blogue. Estou de partida para Estocolmo, depois Liverpool, depois Oxford (um périplo), gostava de responder a todos, mas não tenho simplesmente tempo neste momento. Mas levo o computador -

Gostei imenso dos belos estorninhos de Tsevtayeva, dos sonetos (Fenistil incluído), da variação sobre Tolstoi...

Um abraço (e conto dizer alguma coisa ainda no fim-de-semana!)

sexta-feira, 18 de abril de 2008

E como soneto ainda não há, mas não podendo deixar de vos acompanhar nesta aventura, um poema a partir de um verso de um dos meus poetas favoritos: Paul Celan. 

Depois da chuva a melancolia

para o LM 
resposta ao sonho:
poeta

"a melancolia infinitamente presa à terra"
tu és eu com menos vinte e três nadas
eu sou tu - do meu silêncio indecifrável vens -
tanto desassossego que nos entra pela chuva
o teu olhar rouco enclausurado no meu
e queríamos morrer
e queríamos morrer

ouvir-te, eu redonda - cheia de entranhas -
tudo - não estranho - ser das minhas pálpebras
as tuas mãos asas riscadas pelo meu arado
o teu rosto inscrito na terra que piso agora
o teu rosto escavado no meu
e queríamos morrer
e queríamos morrer

dizíamos então a sussurrar depois da chuva 
                              a melancolia

para a Ana Luísa Amaral um estorninho russo

Resposta Tardia

Para Marina Tsvetáeva


Invisível, espectro, ave escarninha,
por que te escondes nos arbustos negros?
Na casota esburacada do estorninho,
nas cruzes quebradas ora faíscas,
ora gritas da torre de Marinka:
"Hoje voltei a casa.
Admirai, campos maternos,
o que por causa disso me esperava.
Meus seres amados sorvidos num abismo,
a casa dos meus pais aniquilada."
Hoje andamos, Marina, tu e eu,
pela capital da meia-noite, em nossa
peugada milhões de semelhantes,
e não há procissão mais silenciosa,
à volta dobram fúnebres os sinos
e os gemidos selvagens da nevasca
moscovita, cobrindo nossos trilhos.

Anna Akhmátova, 16 de Março de 1940

Sugestão

Já agora uma sugestão, se todos estiverem de acordo. Gostava de ter nas últimas sessõees a oportunidade de "ler" alguns poemas portugueses contemporâneos. Quando digo ler, pretendo dizer interpretar, ou seja fazer uma leitura interpretativa. De facto, há alguns poetas contemporâneos, mesmo consagrados, que leio e que me me dizem muito pouco, creio que por limitação minha.

Como 1ª sugestão posso dar, por exemplo, dos poemas distribuídos, os da Luísa Neto Jorge


Renato

Soneto à força

Para a Ivone, por aquilo que ela disse na última sessão sobre os sonetos. Confesso que estou a achar graça a esta brincadeira dos sonetos.

Querem que escreva à força um soneto
e eu, teimoso, recuso-me a escrevê-lo
Protesto, “não vendo o poema a metro
mesmo se tantos andam a vendê-lo…”

Querem rimas, e muito bem medidas
átonas, tónicas, no sítio certo
Dez sílabas secas, que espremidas
não regam as areias dum deserto


E eu, teimoso, dizia que recusava
porque era uma afronta sem limites
forçarem-me a escrever tal objecto

Mas mais uma vez, sem dar por nada
no meio de tais brilhantes palpites
como se nada fora, tinha um soneto
O poeta ampliado
enunciou a morte do derradeiro idioma.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Poema só com palavras do artigo sobre Tolstoi

A expressão que me chamou mais a atenção no artigo foi "Profeta Espiritual" e daí surgiu esta metáfora do Mundo como profeta espiritual do Homem, por conceder o seu espaço à Evolução.


O Mundo, Profeta Espiritual,
conheceu a consciência e as virtudes,
a paz e a verdade.
da Companheira,
as angústias inferiores,
e o afecto, também.

Desfrutava a vida.

Já distante no tempo
ao mundo sobrepõe-se a morte
e da Existência
tudo acaba.

Joana C.

Pré-Soneto

Eu cantarei de amor tão docemente
Esses momentos passados assim
Entre murmúrios e carinhos teus
Histórias de tempos antes de nós.

Ficar contigo nessa eternidade
Nos sonhos perfeitos cheios de amor,
Nas feridas cobertas sem pensar,
Pedindo sempre mais e mais amor.

Mas o tempo dos tempos chega ao fim
Fica o recordar a bater em mim
Desse coração que por ti perdi.

E pelas manhãs logo ao acordar
Os olhos abrem-se p’ra luz dum dia
Em que tu vais, talvez, p’ra mim voltar.

Joana Correia

TPC reformulado ou tentativa de poema em forma de soneto

Eu cantarei de amor tão docemente
A meiguice refugiada sobre
Narizes húmidos e inconscientes,
Dos que “sentem só o que sentem”.

Na soma da conta que algum deus fez
Se acomodam cada um num meu canto,
A irrequietude abraçando os meus pés
E a altivez repartida pelos braços:

A rainha dos telhados do bairro,
O amigo de sempre e de todos
E a nuvem com patas de algodão.

E porque não hei de cantar de amor
Aqueles três que no final do dia
Me aconchegam sem nada pedir?
Rita Himmel

Soneto Fenistil

Creio que este foi o único soneto que alguma vez escrevi. Como estamos numa maré de sonetos e de lírica Camoneana, arrisco.







Soneto Fenistil

Poesia é sarna que arde sem se ver
ferida que comicha e não se sente
a praga maldita daquela gente
para quem não basta sobreviver

É um querer mais do que bem querer
é andar sozinho por entre a gente
é nunca contentar-se de contente
é cuidar que se ganha em se perder

Fenistil!, grita o político veemente
Fenistil!, agora e em toda a parte
Fenistil!, gratuito p’ra toda a gente

Fenistil!, apoia o crítico de Arte
Fenistil!, já! imediatamente!
Fenistil!, morre o comissário de enfarte

Amor agri-doce

Eu cantarei de amor tão docemente
Que de tanto que agora canto cansarei
E do amor que me pesa levemente
Em breve amor pesado carregarei

E se quiseres, amor, perceber o emergente
Estado de fim deste amor que enterrei
Olha para nós, amor, olha de frente
Que a resposta, que não vês, não te darei

Mas se ainda assim, amor, tu não souberes
Por onde anda esse afecto furagido
Dentro de mim, melhor que não o prendas

Antes liberta, amor, amor que me tiveres
Sob a pena de o teres apenas tido
Ao amor líquido que escorreu das minhas fendas

Incursão à última estação do afecto

Como se lhe pertencesse a descoberta
Antecipou os males da última realidade
A mais forte e...mais marcante
Que em qualquer parte do afecto
Sentencia o final do nosso tempo

Começou a ver a morte de perto
Muito próximo e em passo decisivo
Mas,
Estendeu ainda a irreconciliável existência do romance
pelos terrenos da última e insuperável tranquilidade

Gostava de dizer que a admiração aguda não se esgota
Mas,
não é verdade!

terça-feira, 15 de abril de 2008

ALGUNS COMENTÁRIOS

Obrigada, Renato, pela contribuição! Gostei, sobretudo, da dimensão humorística que o segundo verso institui.
É óptimo que o Rui e o António se tenham juntado à tertúlia (onde estão as nossas contribuidoras?). Jorge Luis Borges: irreprensível, de facto. Mais: genial.
Ainda sobre musas, do José Miguel Silva:


A MINHA MUSA

É mais casta do que eu
e só bebe água mineral.
Furtiva, insolente, caprichosa,
às vezes desaparece-me de casa
durante meses. Apetece-me
bater-lhe. Mas talvez a culpa
seja minha. Passo tanto tempo
a coçar a cabeça ou no terraço
a ver passar os aviões.
É natural que se farte de mim,
raramente estou em casa
quando chega, prefiro dormir
a ver televisão com ela
sentada nos meus joelhos.

Amiúde me pergunto
se compensam os tormentos
a que me força.
Meteu na cabeça fazer
de mim poeta, quando
o que eu gostaria era de ser
aviador. (Mas tenho medo
das alturas, e ela sabe-o.
Aproveita-se da minha debilidade.)

Obriga-me a ficar de olhos abertos
durante o sono, a estudar os
caninos que a vida me mostra,
o manual dos elementos, a história
calamitosa dos meus erros.
É preciso ter estômago
para tanta solidão. Não admira
que muitas vezes a traia
com a Helena, com o bourbon
dos amigos, com o voo violeta
do jacarandá no Largo do Viriato.
Mas não adianta, não sente ciúmes,
ela própria me empurra
para os braços do mundo.

É tão exigente, tão snob, tão
tinhosa. Por ela, não havia
domingos nem feriados,
não havia verão. Era sempre
toda a vida um quarto escuro
com filmes de série B e
uma banda sonora de tiros, soluços,
gargalhadas de teatro anatómico.
Marca-me duelos – é louca! –
com temíveis espadachins,
à vista dos quais a minha alma
treme dos pés à cabeça. Diz que
me faz bem sangrar um bocado,
que é minha amiga, talvez.

Fria, severa, calculadora,
tenta o que pode para contrariar
a minha natureza ruidosa,
paciente, sentimental.
Diz que é uma porcaria
escrever com lágrimas, recita
Mallarmé, levanta-se de noite
para me rasgar os poemas.
Não é fácil aturá-la.

Só para me irritar, muda
o nome de todas as coisas:
se vê um massacre chama-lhe
acre de terra lavrada,
vê um mendigo chama-lhe
trigo, vê uma porta
e chama-lhe susto.
Às vezes pergunto-me
se não será parva.

A verdade é que não sou feliz
com ela, apenas um pouco
mais solitário.
Mas sem ela – vejam que
tristeza, que abandono, que.


José Miguel Silva, Ulisses já não mora aqui
Lisboa, & etc, 2002

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Jorge Luís Borges

Olá a todos!
Para o primeiro post é mais seguro começar com as palavras dos outros! Neste caso, e mesmo que em espanhol ( perdoem-me pelo facto) , achei interessante partilhar algumas ideias do irrepreensível Jorge Luís Borges sobre a criação poética:

"Yo quisiera hablar de mi larga experiencia, mi modesta experiencia. Yo pasé... yo consagré toda mi vida a la literatura. Siempre supe, desde que era un niño, que mi destino sería literario, es decir: yo me veía siempre saturado de libros como en la biblioteca de mi padre, quien quizá me dio esa idea. Y bien, sabía que pasaría toda mi vida leyendo, soñando y escribiendo, y tal vez publicando, pero eso no es importante, no hace parte de un destino literario, pero en fin... yo hice eso. Hice lo posible, no por leer todos los libros, como decía Mallarmé, sino, en fin, para leer los libros que me gustaban. Tuve conciencia de que la lectura debe ser considerada no como una carga, sino como una fuente de felicidad, posible y fácil. Entonces voy a contarles, puesto que estamos hablando de una manera tranquila, espero, mis experiencias personales. Y bien, yo camino por las calles de Buenos Aires, por la Biblioteca Nacional, que dirigí hace un tiempo y que dejé después,y, de pronto, siento que algo va a llegar. Entonces espero. Ese algo llega. Es quizá una fábula, una noción cualquiera, que no concibo de manera clara, pero percibo siempre el comienzo y el fin y después me toca inventar lo que hay entre esas dos cosas. Hago lo que puedo. Después siento que esa idea exige, digamos, un cuento, un poema, un ensayo. Eso me es revelado después(...)

(...)Pero, a veces, mi punto de partida fue un texto cualquiera, ya que, entre las experiencias humanas, quizá una de las más bellas, una que asegura la felicidad de una cierta manera, es, como lo sabemos todos, la lectura. O, como decía Emerson, otro gran poeta: la poesía nace de la poesía; o, lo que yo dije anteriormente: la poesía nace del lenguaje, pues cada lenguaje es una manera de sentir el mundo, cada lenguaje es una literatura posible, incluso si no llega a serlo. Y bien, ésa es para mí otra manera de la creación poética(...)

(...)Y además hay otra cosa: cada vez que escribí sentí la emoción, la emoción de mi vida: yo creo que no se puede escribir sin emoción. sin pasión. La idea de la poesía como chorro de palabras es una idea del todo errónea, yo creo, una idea falsa. Y además. cuando uno ha vivido algo, cuando uno ha sentido algo, en un hombre de letras esto pide una forma (...)

Para lerem com mais detalhe consultem aqui