segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

Resposta a Marlene

Vogamos.
Olhamos o mundo com o espanto de sempre. Ou a serenidade possível.
Esperamos.
A passagem dos dias que escondem o passado sombrio e auspiciam um futuro mais perfeito.
Cremos.
Naquilo que cada um consegue: em nós mesmos, num deus ignoto, nos outros (poucos), no acaso ou na sorte.
Somos.
Cada hora, química e emocionalmente; existimos.
E haveremos de nos reencontrar.
Até lá, abraço.
M. 

sexta-feira, 15 de Agosto de 2008

Hoje também é dia

Hoje também é dia de ressuscitar o blog adormecido
Acordei e pensei que hoje seria um bom dia para eu dizer
Se assim eu tivesse algo que contar

Mas que seja, que importa
Mesmo sem contraponto, eu conto
Conto vantagem...
Conto dinheiro...
Conto pelos dedos as vezes que escrevi depois da oficina

E não pode ser...

Por onde andam vocês?
O que têm escrito?
Que música ouvem quando acordam?
Que livros lêem antes de dormir?
Que sol é esse que vos ensombrou a escrita?
Que verão é esse que vos levou daqui?

Sem o que contar, eu conto convosco
Para que voltem vezes sem conta
aqui

Porque hoje também é dia

terça-feira, 17 de Junho de 2008

Convite (transmissão de)

A Livraria POETRIA convida todos os que sentem a poesia "de todas as maneiras" para a apresentação do livro "Amanheceste em mim pelo poente", de José Custódio Almeida da Silva, no próximo dia 20/06/08, no Palacete Balsemão, pelas 21,30 h.

A Drª Maria Helena Padrão fará uma intervenção sobre o autor e serão lidos poemas com acompanhamento musical (guitarra clássica), seguindo-se uma sessão de autógrafos.

Informações: 222023071


POETRIA

segunda-feira, 16 de Junho de 2008

Dizer poesia

No "Câmara Clara", ontem, especial evocação de Pessoa e suave menção de esplêndidos outros, com a presença da fabulosa Germana Tânger, hoje com 88 anos.
Espero que tenham assistido.
Imperdível, de mágico.



GERMANA TÂNGER foi professora de dicção no Conservatório Nacional durante 25 anos. Apresentou o programa semanal «Ronda Poética», na RTP.
Em 1948 iniciou um longo percurso durante o qual divulgou por todo o mundo grande parte dos poetas portugueses, através de muitos recitais que realizou.
Em Novembro de 1999 fez a sua despedida artística no Teatro da Trindade, 40 anos após ter dito pela primeira vez a «Ode Marítima», de Álvaro de Campos.
Em Setembro de 2004 foi publicado pela editora “Assírio & Alvim” um livro-áudio, prefaciado por José Augusto França, com poemas de Almada Negreiros, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa, seleccionados e ditos por GERMANA TÂNGER, agora com a veneranda idade de 86 anos.
Trata-se de uma gravação ao vivo feita no Teatro S.Luiz no início da década de 1970, por ocasião de um recital de poesia e piano por Germana Tânger e Adriano Jordão.
Fonte NOVA CULTURA – Novembro 2004

domingo, 15 de Junho de 2008

Dias iguais ou o desejo de outra coisa

Quando os dias parecem repetidos
Acordo com um sono simétrico
À preguiça de uma noite igual a esta
Quando me sinto nestes dias copiados
Quero coar as horas que escorregam
Para aquele espaço onde ponho o que não presta

Parece que conheço estes minutos
E quase adivinho o que se segue
Um tempo pardo sem cor
e sem sentido
Que insiste em correr determinado
Para este plágio de um dia já passado

Quando me sinto assim eu repetida
Tenho vontade de viver outra vida
Outra eu, outras tantas que eu fosse
Para outros lados que tanto eu
Me dirigisse
E tudo novo, tudo outro
E um outro dia

Outra Noite - Chico Buarque

domingo, 8 de Junho de 2008

Regressar sempre a Mahler.
Nenhum outro, e foram tantos, trouxe a melancolia tão à superfície do mar. Nenhum outro, e como são inesquecíveis, trouxe o acorde da comoção de tão longe. Nenhum outro, e não os esqueças, levou a devastação da perda tão ao fundo da beleza.
“Wo die schönen Trompeten blasen” por Anne Sofie Von Otter no ciclo de canções “Des Knaben Wunderhorn” e todas as outras.
Ao terceiro dia
o luto desceu
e fez-se noite escura.

Ao terceiro dia
o último olhar da luz
regressou à mais brilhante estrela.

Dizer Eugénio
é dizer para sempre
claridade, candeia, canção.
É retornar ao primeiro ventre
e caminhar no infinito caminho.

sexta-feira, 6 de Junho de 2008

COMO DESABITADO, O CORAÇÃO

Podem acontecer milagres. Podem
acontecer, e então a música decerto estará lá,
as palavras surgirão então, o sol, o girassol, a luz
que gira em torno de eixo feito de outra luz.
Poderia ser deus, ou paz.
Sentir. E de repente o mundo a acontecer,
o milagre do mundo a acontecer –
Milagres.

Lázaro em vestes brancas,
ausente o pó do quarto onde morara, entretecido
a morte e cheiros de planeta envelhecido.
A estrela nova nascendo dos seus pés.
Eis-me, em milagre e mudo.

Lázaro, a sua voz
em sinfonia muda

Ou a violência dentro do coração,
vibrando dentro do coração, ventrículo desfeito
por esta certeza: surgirão as palavras a seguir,
tão lisas e potentes como a música.
Milagres.

Podem acontecer.
Serão como a beleza das pirâmides, a
perfeição: onde pequeno seixo atravessado em falha?
Onde folha finíssima por entre as pedras, as siamesas pedras,
resistentes ao vento e ao deserto, a sua forma, a esplêndida,
a forma mais capaz de resolver enigmas?
Nessa folha finíssima, ou na pedra:
o mais puro milagre

Podem acontecer: junto ao deserto do gesto desumano,
o chicote, a tortura, o revólver bramando no vazio,
a mão que se detém, a boca que não grita,
Lázaro, a sua voz. Igual a música
Eis-nos, e mudos


O conhecer mais puro. O ar que traz os sons,
o tempo a transportar a luz. As estrelas já mortas,
de onde nascemos, a sua luz ainda. Aqui, junto de nós.
Habitar sem saber a mecânica quântica, igual
a habitação de coração.
O pensamento mais iluminado.
Saber da energia, o mais puro conceito.
Como Deus

Milagres. Podem ainda assim
acontecer ao longo do deserto, das fronteiras
erguidas, quase tocando o céu, como pirâmides.
De Rodes, o colosso dividindo, mas aberto aos navios,
o sândalo, a canela, especiarias, mais de mil cheiros,
saltos de gigante, pirateado o coração e o sol.
E ao seu lado, a voz humana:
Cal viva e uma paisagem de cacto e maravilhas.
Alguns

milagres.
Junto à vida amputada, à clave, à carne rota,
ao eminente apodrecer das cores:
capazes de fazer tombar ruídos longos,
e ficar só um timbre, mas mais que uma miragem,
um timbre, som de diapasão vibrando pelo tempo,
ou festa de Babel.
A estrela que morrera, a sua luz cruzando
o velho éter, já não éter, mas tempo

Anoitece, e está vermelho o sol ao lado das pirâmides.
Há-de ser isto o eixo de outra luz,
amigos a saudar-se, devagar,
ao lado do silêncio, hão-de surgir.
A eclosão de impérios. Cheiro o cheiro a marfim,
de sílabas tão brancas

Lázaro fala, pela primeira vez.
rouco de voz, primeiro, depois a sua voz:
Eis-me em milagre, mundo!

E o reconcerto abate-se na luz,
e um dedo basta para o reconforto. Um dedo.
As suas veias. Fio de cabelo ou pena de pavão
tornam-se sons, leve ponto de açúcar, se o vento de galáxia
os amacia. Podem então,
em longo desconserto


E encostada à música, essa palavra nova nascerá:
sina dos olhos que não viram nada,
mas com peixes ao fundo, multiformes,
a voz sem palco e tudo a acontecer,
Podem então, alguns deles então, acontecer,
a derradeira vez como
primeira vez -


Ana Luísa Amaral


Poema original, para todos.

quinta-feira, 5 de Junho de 2008

Entrevista e Notícia

Também soube da notícia hoje. Espero que a Ana Luísa não leve a mal que eu (re)publique aqui a sua entrevista ao JPR (rádio do curso de ciências da comunicação). Está em formato de vídeo porque não sei como colocar audio no blogue. Também podem ler a notícia do JPN (ciberjornal do curso). E aproveito para fazer publicidade aos dois.

video

P.S.: O jantar correu bem? Tive imensa pena em não ir mas em semana de exames e entrega da trabalhos é difícil.

quarta-feira, 4 de Junho de 2008

LINDO!

Visto hoje, no "Global":

ANA LUÍSA AMARAL VENCE PRÉMIO!

O Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores foi atribuído ao livro “Entre dois rios e outras noites”, de Ana Luísa Amaral.
O júri tomou a decisão por unanimidade.
Nascida em Lisboa, Ana Luísa Amaral vive em Leça da Palmeira e é professora universitária.

E foi a nossa musa!
E uma "diseuse" fenomenal; uma inspiração.
Obrigada pelo tempo, carinho e... clandestinos cigarros!
Xi-coração!

quinta-feira, 29 de Maio de 2008

JANTAR NO DIA 4 DE JUNHO ÀS 20.30

Olá a todos!
Na última sessão combinámos realizar um jantar de "fim de curso" no dia 4 de junho, quarta feira, pelas 20.30 no restaurante Casa de 3 . Podem ver a localização aqui.

A Ana luísa Amaral aceitou o nosso convite e vai estar presente.
Combinámos tambem trazer textos nossos para serem lidos no local ( quem quiser, é claro). Vamos ter uma sala só para o grupo, ou seja, privacidade garantida.

Pedia-vos o favor de confirmarem aqui a presença no jantar ou então enviarem-me um mail.
Qualquer questão ou sugestão digam...

terça-feira, 27 de Maio de 2008

Segue o ofício na oficina ou fora dela?

Vivam.
Infelizmente não estive cá na semana passada. Há notícias sobre a continuação da nossa oficina?
Grande abraço
Joana Espain


A Sílaba
Toda a manhã procurei uma sílaba.
É pouca coisa,é certo:uma vogal,
uma consoante,quase nada.
Mas faz-me falta.Só eu sei
a falta que me faz.
Por isso a procurava com obstinação.
Só ela me podia defender
do frio de janeiro,da estiagem
do verão.Uma sílaba.
Uma única sílaba.
A salvação.
de Ofício de Paciência


Eugénio de Andrade

quarta-feira, 21 de Maio de 2008

Sessão de hoje

Olá a todos!
Só cheguei sábado a Portugal por isso estou um bocado confusa com estas trocas de sessões. A de hoje é para ser a última?
Infelizmente acho que não vou conseguir ir, pelo menos não a horas porque tenho muito para recuperar, mas se não fosse a última era menos dramático.

terça-feira, 20 de Maio de 2008

Poesia também pode ser isto

Amanhã assistiremos à "master class" da nossa musa mui querida Ana Luísa Amaral.
De tanta alteração de agenda, e para os mais distraídos ou incontactáveis, recordo que o "rendez-vous" é às 19h15m (!...) - deve ser para começar um bocadito depois - ; ele há o trânsito, o estacionamento, o ginásio, o lanche, o expediente burocrático a encerrar, e mil outras coisinhas que, como sabemos, provocam aquele extraordinário abre/fecha da porta, intercalando o discurso da mestra.
Noite de adeuses.
Planos para cear?
Um copo?
Dois; mais?
It's up to you (us) all.

sexta-feira, 16 de Maio de 2008


Shubert nas águas, nos pássaros Mozart,
Goethe assobiando pela senda serpejante,
Hamlet em seu passo assustadiço a cogitar
- À turba tomavam o pulso nela acreditando.

Talvez antes dos lábios o murmúrio já nascera,
Sem arvoredo caísse a folha baloiçada.
A quem a dádiva de uma obra se faria
Antes da obra já tinha forma traçada.

Ossip Mandelstam,1934

quarta-feira, 14 de Maio de 2008

esta semana no teatro do campo alegre Semana do Cinema Japonês. Chamo a atenção para dois filmes em particular: Primavera Tardia de Yasujiro Ozu, quinta-feira às 18h30 e 22h e Os Contos da Lua Vaga de Kenji Mizoguchi, sexta-feira às 18h30 e 22h. Mas há outros filmes excelentes na programação.

SESSÃO EXTRA - 21 MAIO, 19.15

Boa tarde a todos.
Hoje recebi um email da reitoria com a data da sessão extra do nosso curso.
Para quem não recebeu o email fica a informação:

DIA 21 DE MAIO, 19h15m
sala de formação da Reitoria da Universidade do Porto (3º piso - sala 325)

Quanto a sessão do dia 28 de Maio ( segunda sessão extra proposta pela Ana Luísa Amaral), não tenho mais nenhuma informação.

Não vai haver sessão nesta sexta-feira?

Gostaria que alguém me esclarecesse acerca da(s) próxima(s) sessões.
Estava convencida que era na próxima sexta-feira, mas parece que houve alteração e eu não
fui informada. Se alguém puder dizer-me as últimas novidades sobre o assunto... Obrigada.

terça-feira, 13 de Maio de 2008

No rasto da musa...ou a musa está de rastos

Rápida e sem pensar escrevo
Palavras inquilinas
Que me moram
E desbotam em restos
Deixando rastos de sei lá
Ou de quase nada

Quanto demoram a subir…
Tanto tempo!
Tanto custo!
Tanta linha!
Para viverem tangentes
À superfície da folha

Rápida e sem pensar rebusco
O rabisco que trago
Dentro do desperdício de dentro
Algo que ainda possa
Reciclar

Réstia de gente talvez,
Talvez um qualquer segundo
De uma qualquer terceira intenção
Algo que resgate
A palavra viscosa
Que escorrega de mim
Para cair longe e rente
A uma folha branca
Que rapidamente….rasgo!

domingo, 11 de Maio de 2008

Ser

Porque foi breve e insuficiente.
Porque só se declarou desconhecimento, e vontade do contrário.
Porque tudo está para saber.

À Ana Luísa Amaral, musa.
A todos, formidáveis desconhecidos, agregados numa interrogação lírica. Humana.

Extracto de uma crónica do Miguel Esteves Cardoso "A única natureza é a humana":


(...)"A ignorância humana é certamente mais nefasta que a consciência limitada dos outros animais ou a inconsciência dos outros seres vivos – mas a capacidade humana de se ultrapassar é também a grande esperança. No dia em que se consiga fazer a síntese da religião e da filosofia, praticamente aplicável, como há tantos séculos se vem tentando fazer, o Mundo poderá ser mais do que é.
O erro é abdicar do estudo, do pensamento, da devoção – o maior perigo é a facilidade. E a natureza é a coisa mais fácil e enganadora de todas. A única natureza é a humana."

A Magnólia, o som que se desenvolve nela

Em jeito de despedida, para todas as mulheres, tão belas, do grupo da Escrita Criativa, a Magnólia pela Luísa Neto Jorge



Um beijo

Renato

sexta-feira, 9 de Maio de 2008

Música e Poesia



E porque hoje é sexta. E se não fosse sexta era outro dia qualquer, onde a música como nada mais o faz, convida a poesia a sair à rua (não fosse a música a forma mais popular de dar a conhecer a poesia). E qual é o mal de ser popular? Retira-lhe o valor? Ou não será fantástico que sejam os acordes, as melodias e o timbre de uma voz a definir os "códigos" desta arte tão ligada aos sentimentos. Aqui sim, definitivamente trata-se sobretudo de uma questão de gostos.
Lembro-me de na primeria sessão do curso, a Marlene falar do Chico Buarque, músico e letrista do qual eu partilho a admiração ( aliás sou grande apreciador da MPB e enormemente influenciado pelas suas canções-poemas). E se calhar com isto, lançar o debate sobre as ligações entre a música e a poesia, que com o início das transmissões radiofónicas nos anos 20 e a explosão dos meios de comunicação audiovisuais da segunda metade do século XX assumiram-se como um meio de formação e recriação massificado.

_________________________

FUTUROS AMANTES

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

quinta-feira, 8 de Maio de 2008

As musas na vitrine

Depois do nosso jantar
E sem sequer ter a desculpa do copo a mais
que não houve
(apenas a embriaguez dos poemas que ouvimos)
Caminhei por cedofeita
E os manequins das lojas de roupa
(musas modernas porreirinhas e estáticas como convém)
inspiraram-me esta "coisa" que aqui deixo


Bárbaras Barbies

Maquilhadas e prontas
Descobrem as montras
E seguem nuas e ai… tão tontas!
Vestidas de roupas que as descobrem

Aí vêm as Barbies
Descendo a escada do Shopping

Rijos marmelos de silicone consistência
Cinta de vespa com insistência
do health club
Na pele, o pêssego de penugem depilada
Nos lábios o gloss
de cereja nº. 2
Nas maçãs, o rosto que só cora de blush
Fruta transgénica, modificada

Aí vêm as Barbies
Descendo a escada do Shopping

Do alto dos saltos chegam superiores
Encarnam notas fora do tom
Abanam, estremecem, deslocam-se em vapores
O riso encarnado em estilhaços de baton

Aí vêm as Barbies
Descendo a escada do Shopping

Bárbaras Barbies
Aspiram ser alguém
Entre as mulheres
Benditas sois vós
Bendito o vosso ventre
Fruto da lipoaspiração

mais 4 sessões?

olá a todos:)

como faltei à última sessão fiquei sem saber se vão ser acrescentadas ao worshop aquelas 4 sessões extra que tinhamos falado na semana que passou.

alguém me sabe dar a certeza relativamente a este assunto?

obrigada

Ana
Cristal

Não busques nos meus lábios a tua boca,
nem diante do portão o forasteiro,
nem no olho a lágrima.

Sete noites mais alto muda o vermelho para
 vermelho,
sete corações mais fundo bate a mão à porta,
sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.

Paul Celan

HAVIA TERRA NELES, e
cavavam.

Cavavam e cavavam, assim passava
o seu dia, a sua noite. E não louvavam a Deus,
que segundo ouviam, queria tudo isto,
que segundo ouviam, sabia tudo isto.

Cavavam e não ouviam mais nada;
não se tornavam sábios, não inventavam nenhuma
 canção,
não imaginavam qualquer espécie de linguagem.
Cavavam.

Veio um silêncio, veio também uma tempestade,
vieram os mares todos.
Eu cavo, tu cavas, e o verme cava também,
e aquilo que ali canta diz: eles cavam.

Oh um, oh nenhum, oh ninguém, oh tu:
para onde íamos que não fomos para lado nenhum?
Oh tu cavas e eu cavo, cavo-me para chegar a ti,
e no dedo acorda-nos o anel.

Paul Celan

UMA FOLHA,sem árvore,
para Bertold Brecht:

Que tempos são estes
em que uma conversa
é quase um crime,
porque contém
tanta coisa dita?

Paul Celan

VINHATEIROS escavam
o relógio das horas sombrias
cada vez mais fundo,
tu lês,

O Invisível
desafia
o vento,

tu lês,

os Abertos trazem
a pedra atrás do olho,
ela te reconhecerá,
no dia de Sabbath.

Paul Celan

uma pequena nota:
Paul Celan (de verdadeiro nome Paul Antschel)nasce em 23 de Novembro de 1920 em Czernovitz, na altura parte da Roménia, hoje Ucrânia, filho de pais judeus que morrem num campo de concentração do qual o poeta consegue escapar. Escreveu em língua alemã, e foi um grande tradutor, tendo traduzido entre muitos outros Fernando Pessoa e Emily Dickinson.
Parte Segunda: XIII
(Sonetos a Orfeu)

Adianta-te a toda a despedida, como se estivesse já
para trás de ti, como o inverno que agora parte.
Pois que entre os invernos há um tão sem fim
inverno
que só hibernando o teu coração resiste.

Sê sempre morto em Eurídice –, mais cantante, sobe,
mais laudante, sobe atrás, à pura relação.
Aqui, entre evanescentes, sê, no império das gotas
 que sobram,
sê um copo sonante, que já no som se quebrou.

Sê – e sabe em simultâneo a condição para o 
não-ser,
o fundamento infinito da tua vibração interior,
para que a leves a cabo por inteiro, desta única
 vez.
Ao desgastado aprovisionamento da repleta
natureza, tanto
quanto ao entorpecido e mudo, aos indizíveis 
somatórios,
acrescenta-se rejubilando, e aniquila o número.

Rainer Maria Rilke
OUTRORA À MUSA PERGUNTEI...

Outrora à musa perguntei, e ela
Respondeu-me:
No fim encontrá-lo-ás.
Nenhum mortal pode abarcá-lo.
Quero guardar silêncio sobre o Altíssimo.
Porém a Pátria é sobretudo
Fruto proibido, tal como o loureiro. Mas que por fim
Cada um venha a dele provar,

Muito engana o princípio
E o fim.
Porém o último é
O sinal do Céu, que arranca
      e            homens
Para longe. Disso teve medo
Hércules. Mas por termos nascido
Indolentes, é necessário o falcão, cujo voo
Era seguido por um cavaleiro,
Ao caçar.

No          quando
E o príncipe
        e fogo e vapor de fumo floresce
Sobre seco relvado,
E no meio, sem mistura, o bálsamo
Da batalha, a voz que brota do príncipe.

Vasos são a obra de um artista.
E compra

         mas quando
Chega a altura do julgamento
E tocou castamente o lábio
De um semideus

E oferece o que mais ama
Aos estéreis
Pois a partir de agora deixa
O sagrado de ter utilidade.

Friedrich Hölderlin
(Projecto de hino)

Para a turma



O LIVRO DA FELICIDADE

Para o Rui


Para o António

Para o Renato


Para a Ana Luísa Amaral


Para a Ivone


quarta-feira, 7 de Maio de 2008

Dado o incêndio que ocorreu ontem na reitoria, não tenho a certeza se há sessão hoje. Alguém sabe?

Marta

A gente vai continuar?

"(...) Enquanto houver estrada p´ra andar
a gente não vai parar
enquanto houver estrada p´ra andar
enquanto houver ventos e mar
a gente vai continuar
enquanto houver ventos e mar (...)"
Jorge Palma - A gente vai continuar

Tal como a Joana Espain disse, não podemos terminar agora...
Para mim seria o mesmo que me darem um brinquedo para as mãos e, agora que o desembrulhei, li o manual de instruções e começava a brincar, mo arrancassem para devolve-lo à caixa e à loja.
Ficamos todos de dizer aqui no blog se concordamos que o workshop duplique ou pelo menos continue por algumas sessões mais. A Joana, eu, a Ivone já votarão SIM...quem mais?

Vamos continuar...

Vivam

Gostei muito dos poemas. Mal tenha mais tempo vou lê-los com a atenção devida (quero fazê-lo com calma) e tentar (não sei se o saberei fazer) comentar. Acho óptima esta partilha. Para dar continuidade a este espírito, deixo aqui timidamente alguns que tenho, tortinhos, de rimas fáceis e tontas, mas inevitáveis (os poemas) para mim. Estão em www.sonscinzentos.blogspot.com. Adorei entretanto o blog do Renato.

Gostava também de perguntar se seria possível levar uma colega, que gostaria de conhecer o Pedro Tamen, para a primeira parte da aula de hoje...

Finalmente pedia que se concretizasse uma proposta de continuação do curso...Este não é um bom momento para o curso acabar:)

Um grande abraço a todos

Até logo

DO SILÊNCIO, DAS PALAVRAS, DOS CONVITES, DA ALEGRIA

Desculpem tanto silêncio – estive doente até Domingo! Ontem, quando já estava bastante melhor, recomeçaram as aulas, as reuniões, os compromissos de trabalho. E só agora, e a esta hora, consegui um bocadinho de tempo.

Tentei enviar comentários a todos os poemas, embora só o tenha feito relativamente ao que “postaram” desde a última sessão – não consegui responder individualmente a tudo o que já foi sendo colocado no blogue.

Ele vem, o Pedro Tamen. Os estragos não foram, felizmente, tão graves como poderiam ter sido. Amanhã (daqui a pouco) lá estaremos todos na mesma sala. Tragam questões para colocar ao Pedro, eu vou pedir-lhe que leia poemas, o que ele faz esplendidamente.

Marlene, uma palavra especial. Achei estupendos os seus comentários aos poemas dos colegas. E acho que eles suscitaram outros comentários, o que é excelente. Que não se perca esta forma de comunicação!

Tem sido um enorme prazer estar convosco. Obrigada.

Pedro Tamen

ESCREVO-TE DE PERTO

Escrevo-te de perto, como se a mão
te fosse objecto breve aflorado,
como se da rua te chegasse
a certeza pequena para a compra
dos minutos seguintes. De perto
como o sol, como a cigarra.
Como um silêncio cheio
que te viesse aos olhos de manhã
e amar-te fosse a roupa
escolhida ao começar o dia.

_____________________

AMAR-TE É VIR DE LONGE

Amar-te é vir de longe,
descer o rio verde atrás de ti,
abrir os braços longos desde os sete
anos sobre a latada ao pé do largo,
guardar o cheiro a figos vistos lá,
a olho nú, ao pé, ao pé de ti,
parar a beber água numa fonte,
um acaso perdido no caminho
onde os vimes me roçam a memória
e te anunciam mãos e te perfazem;
como se o sino à hora de tocar
já fosse o tempo todo badalado,
e a tua boca se abrisse atrás do tojo,
e abaixo dos calções as pernas nuas
se rasgassem só para o pequeno sangue,
tal o pequeno preço que me pedes.
Atrás da curva estavas, és, serias,
nos muros de granito, nas amoras.
Amar-te era lembrança e profecias,
uma porta já feita para abrir,
e encontrar o lar ou música lavada
onde, se nasces, vives, duras, moras
- meu nome exacto e pão
no chão das alegrias.

_______________________

UM FADO, PALAVRAS MINHAS

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

terça-feira, 6 de Maio de 2008

para a Ana Luísa Amaral este quase-soneto em esforço, imperfeito; pelos desafios, muitas vezes intransponíveis, com desespero quase-alcançados.

para este quase-soneto inspirei-me no filme A Imperatriz Yang Kwei-Fei do muito amado realizador japonês Kenji Mizoguchi, e na ária final "A morte de Isolda" da ópera Tristão e Isolda de Richard Wagner, tendo "quase-roubado" verso e meio a Isolda: "arquejo, suave -\ amigos!".


A morte da Imperatriz Yang Kwei-Fei

Eu cantarei de amor tão docemente
até de meu pescoço plúmbeo traço
restar, e o ténue manto lentamente
devorar - inaudível - o amplo espaço.

Contemplo já o belo, ah! consolo
onde tudo se inicia - alba obscura -,
não é cedo, não é tarde, entoo,
voltarei p'ra onde a noite não é escura.

Canto a morte... dulcíssima... - verdes!
as flores-de-cerejeira ancestrais! -
infinito deslizar do lirismo.

Arquejo! Suaves inimigos não vêdes
'sim ascendo, enquanto vós me empurrais
- inquietante voo - para o doce abismo? 
bom dia a todos.
infelizmente, a semana passada não pude estar presente na sessão. gostaria de saber se houve "tpc" para amanhã.

obrigada.

segunda-feira, 5 de Maio de 2008

Textos de Isolina Carvalho

BAILADO DE OUTONO INCERTO

Eu cantarei de amor tão docemente
Como o silêncio inquieto
Rio que corre lentamente
Bailado de Outono incerto

Desta alma se faz o meu tempo
Desse tempo se faz meu pensar
Procuro no tempo que invento
Sem desistir de te encontrar

A lua cavalga os meus ventos
Por entre as montanhas partidas
E impactos de duro silêncio

Enquanto invento meu tempo
Construo as mágoas sofridas
Como chamas de um incêndio

Isolina Carvalho


AUSÊNCIAS

Vazia era a casa
Habitada de ausências
De roupas inúteis
De sapatos vazios e absurdos
No seu modo de estar
Á espera dos fantasmas
Que ninguém vê
Que se escutam e inventam
Pelos corredores sombrios
Duma memória distante
De alguém que se tornou ninguém
Na mentira de existir.
Tempestuosas memórias
De ventos agrestes
Cortantes como vidros
Em noites geladas
E ensurdecedores silêncios
Enchem de ruído a casa quase assombrada.
Tu vens dos confins do tempo
À luz branca dos relâmpagos
Facas levadas ao rubro
Rasgando o céu sombrio
As tuas vestes vermelhas
Arrastam-se pelo chão
Encharcado de chuva
Enquanto eu tombo em silêncio
No ponto crepuscular do não ser.

Isolina Carvalho


AROMA DO MAR E DE TI

Há muito que te espero
Em qualquer lugar
Sem que vislumbre luz ou presença
Mesmo anónima que seja
Mesmo que subtil aroma
De madrugada orvalhada
Ou vindo de mar distante
Sabor de fruto perdido
Nos confins do nada
Vogando em calmas águas
Empurrado por vento sibilinoque ri e chora
De ti e por ti
Em embarcação ondulante e frágil
Como barquinho de papel
Em fundo azul
Brincando com o mar

Isolina Carvalho


SOLIDÃO

Pergunto por ti ao vento
Procuro em tudo sinal de ti
Mas perdido estás algures no tempo
Para que não te encontre
Ou te sinta respirar perto
Iludo-me com o cheiro perfumado
Das flores silvestres que apanhaste para mim
Nos campos desertos e imensos
Povoados de papoilas vermelhas
Belas, berrantes e agressivas
Mas continuo só
Em solidão redobrada
Debaixo de um céu vazio, apesar de azul
Sem ti tudo é inútil e frio
Tudo é o nada
Levado à solidão máxima
De quem nada tem
Mas que também nada quer
Além de ti

Isolina Carvalho


O SER E O SONHO
OU O SONHO DE SER

Voltei-me à procura do tempo
Pendurado na imensidão dos séculos
Erigido em monumentos sumptuosos
E em ruínas de cidades.
Poéticas eram as folhas
Que caíam de árvores centenárias
Cobrindo de todo o chão da estrada
Nascida algures na história
Para estranhas caminhadas.
Uma imensa procissão
Lenta
Anónima
Silenciosa
Dirige-se em direcção ao sol
Objectivamente acrítica
Exasperantemente dócil!
Procuravam Deus – ouvi dizer
Olhei em volta mas não vi ninguém
Uma voz andava pelo espaço
Como que perdida
Como que sem dono.
Um menino soprava na água barquinhos de papel
Indiferente à procissão que passava
Indiferente ao mexer de folhas secas.
A enorme totalidade de silêncio
Arrastava-se indefinidamente
E o menino sentado junto à água
Percorreu os rios e fez-se ao mar
Num gigantesco barco de papel
Soprado por um monstro
Que o levava para longe.
Perdida a sintonia com o tempo
Navegava pela imensidão dos mares.
Mas o tempo voltou
E com ele uma nova história dos homens
Entretanto como crescera!
Olhou de novo a multidão anónima
Que continuava a sua inútil caminhada
Em direcção ao sol
Tinham-se enganado no caminho! - pensou
Já nada se pode fazer por eles
A não ser recria-los.

Isolina Carvalho


NOITE SOMBRIA

Eterna como a noite dos tempos
È a tristeza que passa por nós
No caminho ao entardecer
Senti-la na pele é afago
De suspiro mal sentido
De fogo que mal queima
De mar que se afasta para longe
E leva consigo a certeza
De eu nada ser
E do grito estrondoso
Do silêncio
Que parou no tempo
Do vento

Isolina Carvalho


DESPEDIDA

Não chames por mim porque parti
Deixei para trás vestes fulgurantes
Perdidas no caminho
Em manchas sedosas e vermelhas
Á mistura com folhas fascinantes
De todos os Outonos
A tarde é resplandecente da tua ausência
E eu fui-me embora

Isolina Carvalho

Musa (de novo)

Муза


Когда я ночью жду ее прихода,
Жизнь, кажется, висит на волоске.
Что' почести, что' юность, что' свобода
Пред милой гостьей с дудочкой в руке.

И вот вошла. Откинув покрывало,
Внимательно взглянула на меня.
Ей говорю: "Ты ль Данту диктовала
Страницы Ада?" Отвечает: "Я".

À MUSA

Quanto, à noite, espero a tua chegada,
a vida me parece suspensa por um fio.
Que importam juventude, glória, liberdade,
quando enfim aparece a hóspede querida
trazendo nas mãos a sua rústica flauta?

Ei-la que vem. Soergue o seu véu,
olha para mim atentamente.
E lhe pergunto: "Foste tu quem a Dante
ditou as páginas do Inferno?". E ela: "Sim, fui eu".


1924 - Anna Akhmátova

E agora?

Estou devastada com o que sucede na Reitoria, nossa casa de letras, de encontros, de descobertas e do mais.
O Rui, em Praga, assusta-se; eu, cá em baixo, nem tenho coragem de subir...
O fumo chega a Stª Catarina.
E agora, onde, o círculo derradeiro (parte I) e o terno Pedro Tamen?

sábado, 3 de Maio de 2008

petição contra o novo acordo ortográfico.

sexta-feira, 2 de Maio de 2008

Soneto adulterado

Eu viverei aqui tranquilamente
quando sentir bem longe esta saudade
esse suave e duro sentimento
que toma o meu viver, a minha idade

Liso lençol azul rema à distância
marcada em ondas líquidas de mar
longo é o horizonte da minha infância
que em meros sonhos anseio alcançar

Agora quero ousar teimosamente
e nesse cais da memória embarcar
quero escutar a voz da minha gente

Nos laços da família me enlear
deixar correr uma lágrima ardente
feita à espera na praia deste olhar

TPC em atraso

Uma ideia em concreto

Conciliar dramas
ser alvo de morte
em função da glória
e obra do mais forte

Difíceis problemas?

Destacar essa ideia
revela o fosso insuperável
que é eleger a guerra
como garante da paz

Seja em idiomas traduzido
seja em religião sentido
o profeta também se esgota
e essa ideia em concreto
sobrepõe-se à ficção
e revela o fim da vida

A sua última estação

Se o melhor dos mundos possíveis fosse realidade

Se o melhor dos mundos possíveis fosse realidade, eu

Pediria à minha musa
pra me ditar um poema
feito com letras de vida
e acentuações banais

talvez bastasse, nem mais

estrofes sem qualquer métrica
dos versos a redondilha
maior para os sentimentos
pautados por rimas raras
em alexandrinos gestos

perfeita sonoridade
solta em texto no momento
tecido em soneto branco

Entre o físico e o transcendente

A pensar na dimensão paralela onde se inscrevem os poemas
E nesse tempo distinto que não vem assinalado
no relógio, no calendário, na agenda
A pensar nesse estado especial de ser, mais do que estar a ser
A pensar em tudo o que dizemos nas nossas sessões de 4ª à noite
Que me retiram também do meu tempo
contado, calendarizado, agendado
E me fazem andar sem ver por onde ando
e chegar a casa sem saber quem me levou
A pensar na palavra com cheiro
E na magnólia desfolhada em letras
A pensar como na verdade a poesia mora algures
num tempo e espaço entre o físico e o transcendente
A pensar em tudo isto...envio mais um poema, dos muitos que gosto tanto


Sobre o Poema de Herberto Helder

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo.
Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

— Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

um testemunho

É verdade! De facto, em variados aspectos, para mim o curso está a ser uma aventura bem prazeirenta. E porque às vezes arrependo-me por calar, ( claro que noutras arrependo-me por falar), convem dizer, sem um certo tipo de pudor paralizante, que sinto-me privilegiado por fazer parte deste grupo. Gosto da sua heterogenidade, inspiram-me as opiniões de cada um (quer concorde ou não), enternece-me os seus silêncios. Talvez, de uma certa forma, sinta segurança com a diversidade sugerida. Sei que é curto este tempo em conjunto, na medida em que o que possa aprender com a nossa dedicada formadora e com as experiências de cada um dos meus colegas é apenas um pequena gota das várias águas que seria possível beber dentro de um grupo como este.
Isto afinal, para responder que gostaria de expandir o curso para as sessões que forem possíveis, conforme falado na última aula. (Nas quartas feiras de preferência).

Outra coisa é este blog. Cumprimento aqueles que já escreverem, e desafio aqueles que por qualquer tipo de inibição ou receio de exposição ainda não participaram.
Partilho então um pequeno texto que tenho na "gaveta", pretendendo tambem dar o meu testemunho sobre as mil e uma caras (e máscaras) do poema.

Deixaria ainda uma sugestão: Alem de analisarmos poemas da Ana Luísa Amaral ( o que ficou por fazer na última aula), atrevo-me a sugerir, quem sabe, a discutir um dos poemas, que de certeza, cada um de nós tem guardados num local secreto. Afinal uma "oficina de escrita criativa" tambem passa por aí. Concordo que não é possível ensinar a escrever, mas é crucial entender aquilo que não resulta e não deve ser seguido ou aquilo que está a mais. E quem sabe salientar algum verso ou sentido que produza um efeito relevante ou sentido poético.
Não sei! é uma ideia. Pela minha parte não fico melindrado com as críticas, aliás ficaria agradecido de as receber. Acho mesmo que me é vital nesta fase de aprendizagem.

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AQUELE BEIJO

Aquele olhar não é triste
É o meio de amansar um desejo.
Triste é não acreditar
Que merece aquele beijo.

Um beijo não é um prémio
Tão pouco uma aprovação
São duas bocas
São dois lábios
São duas da tarde
E o Senhor Juiz esta almoçar
Não tinha nada que provar,
A não ser...
Aquele beijo.

A saliva animal do desejo dele
Cola na nitidez do desejo
Brilhante da quase carne
Dos lábios dela.
-Como é seguro o seu aroma.
Pensou ele de olhos fechados,
E beijando-a
No escuro
Abriu-se a porta do estábulo,
E beijando-a
Ao sol
Viu a ossura do cavalo a correr
Livremente.

O amor estava lá
Mas não se falava dele.

quinta-feira, 1 de Maio de 2008

É claro...

À Ana Luísa Amaral

Pelo entusiasmo com que abraçou este projecto de introdução à forma das palavras, à magia do contexto, à combinação de artes.
Pela generosidade de ouvir.
De partilhar e corresponder.
Pela alegria (coisa imensa).
Por todos os mundos que entreabre.

E por estar disposta a tornar.

Hoje e agora, com especiais votos de melhoras.
E um abraço grato.


Alegria da escrita

Para onde corre esta corça escrita pela mata escrita?
Beber da água escrita
que reflectirá o seu focinho como o papel químico?
Porque levanta a cabeça, ouvirá algo?
Sobre as quatro patas pela realidade concedidas,
debaixo dos meus dedos, apura o ouvido.
A palavra silêncio vai farfalhando no papel
e afastando
os galhos pela palavra “bosque” suscitados.


Por cima da folha branca, agacham-se para saltar
letras que se podem dispor mal,
frases que acuam,
das quais não escapa.


Numa gota de tinta há vários
caçadores de olhar franzido
prestes a correr caneta abaixo,
cercar a corça e fazer pontaria.

Não sabem que estão fora da vida real,
que neste preto no branco há outras leis.
Um pestanejar dura tanto quanto eu queira,
posso seleccioná-lo em pequenas eternidades
cheias de balas imobilizadas no ar.
Se eu assim dispuser, nada te acontecerá.
Nem uma folha cairá sem a minha vontade,
Nem um cisco se vergará sob o casco de um ponto final.

Será que há um mundo
cujo destino dependa do meu poder absoluto?
Um tempo acorrentado pelas minhas letras?
Uma realidade que persista por minha ordem?

Alegria da escrita.
Oportunidade de eternização.
Vingança da mão mortal.


Wislawa Szymborska, 1967


Alguns gostam de poesia

Alguns –
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam –
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia –
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

Wislawa Szymborska, 1993


É claro

É claro que não dizia o que realmente pensava,
pois os mortais merecem respeito
e os segredos da nossa miséria carnal
não podem revelar-se na fala nem na escrita.
Aos vacilantes, fracos e inseguros foi dada uma tarefa:
erguerem-se dois centímetros acima da sua própria cabeça
e dizerem a quem desespera:
“eu também chorava assim a minha sina”.

Czeslaw Milosz, 2000

quarta-feira, 30 de Abril de 2008

Se...

Para a Ana Luísa, com um ramo de flores de pedido de desculpas... o trabalho de casa:


Se o melhor dos mundos possíveis fosse realidade, eu não nasceria a escrever sonetos, mas morreria a saber juntar palavras em disjunções belas, que ficariam gravadas em pó e vento e circulariam sem poiso, beira nem eira por todos os sítios que, em matéria, não toquei.

Fluídos

Eu cantarei de amor tão docemente
Durante um momento fugaz e ardente
No ar ausente pairas incendiado,
Beijo, trémula latejando fado

Eu gritarei de amor tão loucamente
Quando te encontre em meu leito candente
Olhar febril recorre veemente
As tuas mãos em mim suavemente

Sinto o teu odor no peito trespassando
Os teus cabelos em mim sussurrando
Amor, com os teus sons inesperados

Relincham fluídos varando ocasos
Exaltando das profundezas, ondas
Batem convalescentes e redondas.

Duplicação da escrita criativa

Boa tarde

Gostei bastante de um poema de Pedro Tamen que começa assim:

'Por mais que tente escapar-me
com meneios de felino,
de nada vale esse charme:
não tarda e quino.'

E porque quinar quinamos todos que tal fazer um pouco mais do que gostamos e duplicar este curso de escrita criativa. Propunha que se discutissem disponibilidades hoje na aula (sessão:).

Até logo

Joana

terça-feira, 29 de Abril de 2008

De volta ao Plano Inclinado

Os comentários da Marlene e da Ivone ao Plano Inclinado obrigaram-me a responder. Pretendo com esta resposta também reconhecer a justeza das críticas da Ivone à falta de rigor na minha escrita, motivada por um controlo grosseiro do plano e da velocidade das palavras. Acredito mesmo que foram o atrito e a inércia, que desprezei por simplificação, que fizeram com que o livro ainda não tivesse encontrado editor.



Inclinei-me por cima da escrita para a ler de soslaio, distraí-me, desequilibrei-me e caí por sobre o plano que ruiu com estrondo. Enfiei a haste dum h retardatário no olho direito e gritei bem alto "foda-se, foda-se", e com o balanço subi a cómoda, que virou de pantanas o quarto. Molero aproveitou a balbúrdia para entrar em cena e frisar bem que aquela deixa era dele. “Vai-te tu embora que esta história não é a tua”, ripostei eu com firmeza.

“É bem feito”, diz a Ivone, aproveitando também a minha fraqueza, “bem te disse para teres em conta o atrito e a inércia do h. Bem sabes que o h é uma letra preguiçosa que tende sempre a ficar para trás. Ele bem empina a haste para não tropeçar mas, mesmo assim, não pode competir com o o ou com o a.”

Mas o meu principal problema, depois de me ter levantado do meio dos escombros, era o que fazer com o plano ruído. “Talvez música concreta.” grita lá do fundo em tom de desafio Molero, que aproveitara a minha atrapalhação para se não ir embora.